08/10/2009

Album de fotos

Gente, não imprimimos nenhuma foto da viagem pra fazer albinho. Ta tudo la no Picassa. Mas agora, colocamos fotinhas novas e organizamos as pastas. Vai la: http://picasaweb.google.com.br/taisbarato/

Para os amigos: depois a gente vê as fotos juntos, com direito a comentários!

PS: o blog ainda ta vivo, eu é que ando meio ocupada e não deu pra atualizar.

29/09/2009

Au revoir!

Hoje eu comi pela ultima vez no bandejão ruim da Cité, arrumei malas, doei roupas, pratos, copos, panelas…Joguei um monte de coisa fora. Ontem também foi assim: ida para o correio para despachar 12 quilos de livros. Os outros 11 couberam nas malas. Fechar conta no banco, mandar carta para anular seguros… E eu que achei que conseguiria passear e me despedir propriamente da cidade nesses dois dias!

Não tive tempo de ver a coleção permanente do Museu Pompidou, e também não consegui comprar algumas coisinhas de ultima hora (Rê, não deu pra comprar o protetor solar que vc me pediu :( ) Por isso, acabei nem atualizando o blog, mas ainda tenho muitos posts pra fazer (como o da Festa da Comuna, que algumas amigas cobraram). Então, acho que esse blog ainda tem uma sobrevida quando eu voltar para o Brasil…

Outra idéia que eu tive, mas não realizei (por preguiça mesmo) era sair para dar uma volta e tirar fotos de Paris de madrugada. Uma menina aqui da Maison fez uma série de Paris de madrugada e ficou muito bonita. Ontem so aproveitei pra tirar essa foto da minha janela à noite, porque o céu estava assim, rosa choque:

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Daqui a pouco vem um provável comprador ver a minha televisão e, depois disso, eu acabo com a fase “resolvendo problemas burocráticos antes de partir”. Hoje à noite, ainda bem, eu devo sair com o Arthur e os amigos dele pra uma despedida em algum bar do Quartier Latin. Pretendo dar uma passadinha ali do lado, no Sena, pra dizer à bientôt (até logo). Afinal, ainda tenho o que fazer nessa cidade, né?

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22/09/2009

Poema pra brasileiro ler

Sexta-feira passada foi meu ultimo dia de aula na Aliança Francesa; meu e da outra aluna, uma italiana (éramos apenas duas). Apesar de pequena, o professor gostava da classe. E, no nosso ultimo dia de aula levou champanhe e petiscos, para uma mini-festa. Ele disse que faz isso sempre que gosta da turma, tira o dinheiro do bolso dele mesmo. Achei uma graça!

Ele também reservou a ultima parte da aula para a fonética. Como ele adora literatura, pediu para que a gente lesse poemas de Paul Verlaine, com atenção para a pronunciação e, claro, a interpretação. Ele leu uma vez para mostrar como teríamos que ler aqueles poemas tristes, melancólicos. O professor achou que a pronuncia da outra menina estava italiana demais, mas que ela estava quase acertando a interpretação. Ele gostou da minha pronunciação, mas não ficou satisfeito com a interpretação:

- Menos feliz, menos feliz…essa sua felicidade brasileira não combina com o poema!

Não teve jeito, tentei a voz mais triste que consegui… quer dizer, aquilo que eu considerava um triste natural. Sabe o que é professor, mais do que isso, eu vou começar a achar falso e, portanto, engraçado!

- Ai, vocês brasileiros não tem jeito…rsrsrs

Além dos poemas de Verlaine, ele mostrou um texto do Victor Hugo que eu achei excelente. Esse combinou com minha alegria brasileira, ainda bem. Deixo aqui a tradução e o poema no original, em francês:

Jovens, tenham cuidado com as coisas que vocês dizem

Jovens, tenham cuidado com as coisas que vocês dizem.
Tudo pode sair de uma palavra que, en passant, você perdeu.
Tudo, o ódio e o luto! – E não venha me dizer

Que seus amigos são confiáveis e que você fala baixo…

Escute bem:

Cara a cara, em particular,

Portas fechadas, em sua casa, sem uma testemunha que respire,

Você diz ao ouvido do mais discreto

De seus amigos de coração, ou, se você preferir,

Você murmura sozinho, acreditando que você quase se cala,

Do fundo de um porão a trinta pés debaixo da terra,

Uma palavra que desagrada a um individuo qualquer;

Essa palavra que você acredita que ninguém ouviu,

Que você dizia tão baixo num lugar surdo e sombrio,

Corre com negligência, parte, salta, sai da sombra!

Olhe, ela já esta la fora! Ela conhece o seu caminho.

Ela anda, ela tem dois pés, um bastão na mão,

Tem sapatos firmes, um passaporte em ordem;

- Precisando, ela cria asas, como a águia!

- Ela escapa de você, ela foge, nada a deterá.

Ela segue pelo cais, atravessa a praça, e tudo o mais,

Passa pela água sem barco na estação das vinhas,

E, atravessando um labirinto de ruas, vai

Direto até o individuo de quem você falou.

Ela sabe o numero, o andar; ela tem a chave,

Ela sobe a escada, abre a porta, passa,

Entra, chega e, desdenhosa, olhando o homem na cara,

Diz: – Olha eu aqui! Eu saio da boca de um tal…

- E esta feito. Você tem um inimigo mortal.

Jeunes gens, prenez garde aux choses que vous dites

Jeunes gens, prenez garde aux choses que vous dites.
Tout peut sortir d’un mot qu’en passant vous perdîtes.
Tout, la haine et le deuil ! – Et ne m’objectez pas
Que vos amis sont sûrs et que vous parlez bas… -
Ecoutez bien ceci :

Tête-à-tête, en pantoufle,
Portes closes, chez vous, sans un témoin qui souffle,
Vous dites à l’oreille au plus mystérieux
De vos amis de coeur, ou, si vous l’aimez mieux,
Vous murmurez tout seul, croyant presque vous taire,
Dans le fond d’une cave à trente pieds sous terre,
Un mot désagréable à quelque individu ;
Ce mot que vous croyez que l’on n’a pas entendu,
Que vous disiez si bas dans un lieu sourd et sombre,
Court à peine lâché, part, bondit, sort de l’ombre !
Tenez, il est dehors ! Il connaît son chemin.
Il marche, il a deux pieds, un bâton à la main,
De bons souliers ferrés, un passeport en règle ;
- Au besoin, il prendrait des ailes, comme l’aigle ! -
Il vous échappe, il fuit, rien ne l’arrêtera.
Il suit le quai, franchit la place, et caetera,
Passe l’eau sans bateau dans la saison des crues,
Et va, tout à travers un dédale de rues,
Droit chez l’individu dont vous avez parlé.
Il sait le numéro, l’étage ; il a la clé,
Il monte l’escalier, ouvre la porte, passe,
Entre, arrive, et, railleur, regardant l’homme en face,
Dit : – Me voilà ! je sors de la bouche d’un tel. -

Et c’est fait. Vous avez un ennemi mortel.

12/09/2009

Minha Rive Gauche

Na segunda-feira comecei um curso de francês intensivo na Aliança Francesa,  no Boulevard Raspail, pertinho do Jardim de Luxemburgo e das áreas que adoro no Quartier Latin. Dessa vez, a escola fica mais perto de casa. Daria até pra ir a pé, mas eu nunca consigo me programar pra sair mais cedo. Sempre que saio da aula, porém, aproveito pra dar uma voltinha pela região. Ontem tirei uma foto (torta!) com o celular (infelizmente, não estava carregando a maquina fotográfica) da vista que eu tenho no caminho que faço pra voltar pra casa. Atravesso o Jardim e sempre dou de cara com o Pantheon la atras, imagem que fiquei admirando a semana inteira, fazendo o mesmo trajeto. Antes de ontem eu até levei a câmera, mas pro meu azar, estava chovendo, o que deixa tudo mais sem graça. Ontem, pelo contrario, tava um dia gostoso de outono, um friozinho de leve, com sol.

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Quando ia para a outra escola de francês, a EFI, gostava de sair uma estação de metrô antes só para atravessar o rio Sena e a Ile de la Cité. Chegando na Rive Droit (margem direita), não tinha nada demais no meu trajeto pela região de Les Halles (lojas, lojas e mais lojas). Então, fiquei aqui pensando que se tivesse que escolher uma das margens eu ficaria com a Rive Gauche (margem esquerda) do Sena. Anexaria as ilhas fluviais e o Marais à minha margem escolhida, é claro. Ficaria assim a minha Paris Rive Gauche + anexos: começaria no 14º arrondissement, onde moro, bem na beirada sul, na Cité Universitaire, passaria por Montparnasse e seus cafés, creperias e cinemas, subiria até o Jardim de Luxemburgo, o Quartier Latin, com suas faculdades e livrarias, Saint-German ali do lado com seus cafés famosos. Anexaria as ilhas porque a Notre Dame, pra mim, com sua arquitetura e localização, é o ponto mais bonito da cidade. E a pequena Ile St-Louis é um charme e – muito importante – sedia a Bertillon, a melhor sorveteria de Paris, sem duvidas. O Marais é uma outra paixão, com seus casarões (chamados de hotéis) do século 17, o Hotel de Ville, a Place des Vosges e o publico variado que frequenta o bairro que concentra duas comunidades bem diferentes, os judeus e a comunidade gay parisiense. A foto abaixo eu tirei de dentro do museu Victor Hugo; era a vista que o escritor tinha de seu apartamento na linda Place des Vosges.

http://lh4.ggpht.com/_d9-ZuNXg7tI/So1yKfdhACI/AAAAAAAAEys/ZfLK9FyZkoE/s800/victorhugo%20026.JPG

Eu tava até esquecendo que a Torre Eiffel fica também na Rive Gauche, mas a verdade é que ela não é essencial na minha seleção. Gosto da torre, mas pra ver como turista. Não esta entre as minhas regiões e monumentos preferidos. E claro que, da mesma maneira, gosto de um monte de coisa que ficou do lado direito. Como esquecer do Louvre, do Arco do Triunfo, de Montmartre?

O que quero dizer é que sou mais Rive Gauche pra morar, frequentar, viver. Pra sentar e ler um livro, ficar horas num café, essas coisas. Numa divisão feita bem por cima, na Rive Gauche fica a Paris mais antiga (foi para a esquerda, afinal, que os romanos começaram a expandir a cidade, chamada então de Luthecia). Remanescente desse periodo, temos as Arènes de Luthece, as ruinas de uma imensa arena romana que encontramos surpreendentemente na area do Quartier Latin, numa entrada estreita de uma das ruazianhas de comércio proximas a Rue Mouffetard, onde fica o mercado ao ar livre mais conhecido de Paris.

A margem esquerda tem essas ruínas romanas e um pouco do que sobrou dos monumentos da Paris medieval. Tem, em volta da Sorbonne e de outras instituições de ensino um clima mais intelectual, um pouco mais artístico. No lado direito destaca-se os monumentos construídos a partir da época napoleônica, mais recente. Por ali fica uma Paris mais grandiosa, monumental, do Louvre, do Petit e do Grand Palais, da Opera. E é la que sentimos a Paris chique, luxuosa, da Champs Elisée, dos grandes boulevares, com suas lojas de grife.

Ja me falaram que muito da margem esquerda – principalmente o 14º arrondissement – é o tipo de lugar onde os bobo (pronuncia-se bobôs – e significa burguês boêmio) gostam de morar. Segundo os parisienses, o “burguês boêmio” é aquela pessoa que tem dinheiro, mas quer ficar longe do luxo e da ostentação. Então, ele mora num lugar bonito e arborizado, perto de centros de cultura, prefere comer “bio” e beber vinhos de pequenos produtores (mais caros, por sinal) e odeia grifes mas vive atras de tecidos “bio” (também caríssimos). Eu sei, tem um pouco de contradição nesses ricos que torcem o nariz para a ostentação, mas que têm um nivel de consumo tão alto quanto o das madames da Champs Elisées, mas confesso que gosto bastante dos lugares que eles escolhem para morar. Enfim, se eu tivesse muito dinheiro (e precisa ser muito, muito, muito mesmo!), eu compraria um belo apartamento na Rive Gauche e viveria muito bem por aqui!

Foto: vista do Parque Montsouris, aqui em frente à Cité

02/09/2009

Os fantasmas das Highlands

Os britânicos têm um gosto pelo bizarro, pela violência, o terror e as historias de fantasma. Pelo menos foi essa a impressão que a gente teve da Terra da Rainha. Você vê esse gosto na moda, nos costumes, no comportamento e nos lugares turísticos. Então, temos la um castelo muito visitado porque seria mal-assombrado, um museu da tortura, os lugares por onde passaram o notório Jack, o estripador, em Londres. Criminosos lendários, historias de morte, de terror e de fantasmas vivem no imaginário popular.

Os escoceses não ficam atras dos londrinos. Fala-se muito do passado heroico, mas também dos massacres e da violência que marcou o pais. Fizemos uma viagem de um dia pelas Highlands, saindo de Edimburgo nas terras baixas, passando pelo Lago Ness, já nas famosas terras altas, e chegando em Inverness, mais ao norte. Passamos por terras de formação antiga que hoje lembram um inacreditável terreno lunar, com os locks de água cristalina, refletindo e repetindo a paisagem que naturalmente já se repete.

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As imagens ficaram ainda mais interessantes porque tivemos a sorte de sermos acompanhados por um guia de viagem super empolgado, que contava a historia de cada cantinho, cada ponte, ruína, lago ou montanha. Nas varias historias, algo em comum, aquilo que eu já tinha sentido em Londres, um interesse pelas historias violentas que marcaram a região. Uma delas, conhecida de praticamente todos os escoceses, ficou mais viva na minha memoria: o massacre de Glencoe, de 1692.

O Brian, nosso guia escocês contou que essa tragédia teria abalado a hospitalidade dos highlanders. O dia 13 de fevereiro de 1692 é relembrado pelos escoceses como um dia de covardia e injustiça, de abuso do poder real ou de uma briga antiga entre dois clãs escoceses. Nessa data, 38 homens do clã dos MacDonalds foram mortos em suas casas, surpreendentemente, por seus próprios hospedes. Duas semanas antes, a família tinha recebido homens do exército inglês, alguns deles conhecidos e até parentes distantes, pertencentes a outros clãs highlanders. Eles comeram, beberam e se divertiram junto com a família, que recebeu bem os “amigos”, sem desconfiar que tudo fazia parte de um complô para exterminar o clã. Depois do massacre, mais 40 mulheres e crianças morreram de frio e de fome, com suas casas queimadas pelo exército, abandonadas no frio e sem recursos num terreno inóspito, árido e distante dos outros clãs.

O mais cruel da chacina é que ela aconteceu por causa de um detalhe burocrático, pelo menos foi esse detalhe que serviu como desculpa para o ato abominável. Em 1688, houve uma disputa de sucessão pelo trono da Inglaterra entre William de Orange e James VII. Alguns escoceses, principalmente os das terras baixas, apoiaram William, mas os highlanders queriam James no poder. Houve vários motins jacobinos (nome dado aos highlanders que apoiavam James) e batalhas entre os dois grupos. James foi derrotado e partiu para o exílio na França. Quando subiu ao trono, William decidiu perdoar todos os highlanders que jurassem lealdade a seu reino. E estabeleceu um prazo para o juramento oficial: 1 de janeiro de 1692. Quem não fizesse o juramento sofreria represálias. Os highlanders receberam a autorização de James, exilado na França, para fazer o que o rei pedia. Alguns foram rápidos e conseguiram fazer o voto de lealdade ao rei no meio de dezembro. Outros deixaram para ultima hora. Foi o caso de Alastair Maclain, chefe do clã dos MacDonalds.

No dia 31 de dezembro de 1691, Maclain dirigiu-se a Fort William, região mais próxima onde um oficial poderia registrar seu juramento. La, foi informado pelo oficial que teria que ir para outro lugar, Inveranay, para registrar o juramento com o sheriff Colin Campbell. Como o oficial sabia que a viagem duraria pelo menos uns três dias no inverno, tranquilizou Maclain e deu a ele uma carta que comprovava que ele tinha chegado a tempo para o juramento. E, assim, o pobre Maclain teve que seguir para outro guichê, digo, outra propriedade, para o registro oficial.

Chegando em Inveranay, ainda teve que esperar mais 3 dias porque o funcionário publico, digo, o oficial do rei, Colin Campbell estava de férias. Depois do chá de cadeira, ele conseguiu oficializar o juramento com o relutante Campbell.  A partir desse momento não se sabe exatamente quem teve a maquiavélica ideia da punição com base num detalhe burocrático. Sabe-se que estiveram envolvidos na historia o Campbell, que não gostava da família MacDonald depois que membros do clã roubaram gado de sua família e um tal de John Dalrymple, um alto servidor real que odiava os highlanders e seus modos “bárbaros”. Não se sabe se o próprio rei William fez parte do complô. Fato é que ele assinou uma ordem para o assassinato dos MacDonalds, com base na desculpa de que o chefe do clã não teria feito o juramento a tempo.

Alguns soldados foram informados da chacina na véspera. Houve quem aceitasse as ordens, mas outros decidiram quebrar suas espadas e se negaram a seguir os superiores. Mesmo correndo risco de morte, alguns soldados tentaram avisar e salvar membros da família. O massacre foi posteriormente condenado pelo Parlamento Escocês, mas nada foi feito contra os reais responsáveis. No fim, a chacina contribuiu para exaltar ainda mais os ânimos dos highlanders contra o monarca, o que acendeu novas revoltas jacobinas nos anos seguintes. Até hoje, o episodio é conhecido como o dia mais infame da historia escocesa. O dia foi imortalizado por artistas, músicos e escritores, como Walter Scott e T.S. Eliot. No poema “Rannoch, by Glencoe”, Eliot diz:

Aqui o corvo passa fome, aqui o veado paciente
procria para a espingarda. Entre o terreno suave
e o céu suave, quase não há lugar
para pular ou planar. A substância se desfaz, no ar fino,
frio lunar ou calor lunar. A estrada venta
na apatia de uma guerra antiga,
languidez de ferro quebrado,
clamor de injustiça confusa, competente
no silêncio. A memória é forte
e vai além do osso. Orgulho cortado,
é longa a sombra do orgulho, no longo desfiladeiro
sem o concordância do osso.

24/08/2009

Nossa viagem pra terra da rainha

Os franceses chamam os ingleses de roast beef e os ingleses apelidaram os franceses de frogs. Os dois países viveram muitos anos de guerra em diferentes períodos, antes de se aliarem nas duas grandes guerras. Hoje, eles travam uma gueguerre (guerrinha, ou guerra de mentirinha). Então, por aqui dizem que os ingleses cozinham e comem mal e vivem num pais sem sol. Por la, finge-se desconfiar dos franceses, esse povo que come coisas esquisitas e não gosta de tomar banho. Na realidade, o que se vê é um grande intercâmbio entre os dois países, já que é cada vez mais fácil e barato atravessar o Canal da Mancha. Então, é comum vê-los passando férias no pais vizinho, alugando e comprando casas de campo e de praia e (o mais estranho) passeando de carro no outro pais. Isso eu acho particularmente perigoso, já que cada um dirige de um lado do veiculo.

Nas nossas férias aqui, decidimos ir para a terra da rainha; o Arthur queria muito conhecer a região. Eu conhecia um pouco da Inglaterra e servi de guia (um pouco perdida, é verdade) para o Arthur em Londres e nas cidades de Oxford e Bath. Chegando na capital inglesa, a impressão do Arthur não foi das melhores e, finalmente ele reconheceu: Eh, Paris é mais bonita mesmo!

Não teve como não comparar: em Londres as atrações pagas eram caríssimas, mas os museus eram de graça, em compensação… a comida não é tão cara e, pasmem, é boa sim! São cidades bem diferentes e, no fim, concluímos que Paris é mais agradável para morar, por causa das pessoas e do ambiente e Londres é mais interessante em alguns aspectos. Um deles: ha um Pub em cada esquina, sempre com ótimas cervejas e comida com “preços honestos”, como eles dizem. Percebendo isso, fizemos um tour dos Pubs: dois em Bath, dois em Oxford e outros tantos em Londres, entre eles os famosos Black Friar, Sherlock Holmes e Lamb and Flag.

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Aproveitamos o que a cidade tem de especial: assistimos a uma peça do Shakespeare no Globe e fomos a um musical bem britânico, o Billy Elliot. Eu levei o Arthur na Forbidden Planet, uma loja que é a perdição para os fãs de quadrinhos, RPG e afins. Passamos pelo Museu de Historia Natural, a National Gallery, a Tate Britain e a Tate Modern. E passeamos pelos belos parques da capital (esses, é preciso reconhecer, são mais belos que os da cidade-luz), em especial o St-James. Já conhecia o lugar, mas dessa vez, eu consegui ver a estrela do parque, o pelicano:

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Além dos outro animais que sempre estão por la:

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Ficamos oito dias em Londres. No ultimo dia tive que ficar no hotel porque peguei uma gripe brava e tive que ir ao médico e tomar antibióticos, pra variar. Acho que a mudança de clima não deve ter feito muito bem. Depois desse dia de descanso, partimos para Edimburgo, na Escócia, e eu percebi que fiz muito bem em começar a me tratar em Londres. Se na capital inglesa eu já estava achando que o vento incomodava, em Edimburgo tive que tirar minhas únicas três blusas de frio da mala mais um cachecol, modelito que tive que repetir nos três dias que ficamos la.

A Escócia é mesmo a terra do frio eterno, como disse a Cris, mas é realmente linda. Edimburgo estava lotada porque agosto é o mês dos festivais – de musica, literatura e outros, como o famoso Fringe, de teatro.

Assistimos a algumas apresentações de rua, mas, como não tínhamos muito tempo na cidade, preferimos ver as atrações turísticas, como o castelo:

Visitamos também o monumento ao escritor Walter Scott, uma obra bem bonita de onde se tem uma vista incrível da cidade:

Infelizmente, não conseguimos subir até o topo do Arthur’s Seat, porque precisava ser mais esportista pra subir aquela trilha de barro na chuva. Mas subimos uma parte do percurso do lugar que eu teimei em batizar/traduzir de “o banquinho do Arthur”, só pra passar os dias infernizando o Thur com piadinhas infames como “Oh Arthur, olha onde você foi colocar o seu banquinho, não precisava ser tão alto”…

Como não poderia faltar, fomos a Pubs escoceses, para não perder o habito, e comemos no Elephant House, considerado o melhor café de Edimburgo, onde a J.K. Rowling escreveu partes do Harry Potter. Alias, a cidade e a região se orgulham da escritora, que tem casa em Edimburgo e se baseou em varias atrações locais para escrever a série do jovem bruxo.

Tiramos um dia para conhecer as Highlands, com um guia de viagem muito bom, que nos contou a historia da região, mostrou lugares lindos e alternou sua fala na longa viagem de ônibus com canções tradicionais escocesas. Acho que as Highlands sozinhas rendem um post inteiro, de tão interessantes. Vamos ver se eu me inspiro.

Fomos até o conhecido lago Ness, onde passeamos de barco. Mas não vi nada, não. Nem um monstrinho. O Arthur fez essa foto ai, para a gente lembrar do Nessie, que não vimos, é claro.

A foto foi feita na parte de baixo do barco. O desenho do monstrinho fica na janela de vidro e fica la para os turistas tirarem fotos mesmo, pra mostrarem que viram o mostro…hehehe Além do Ness, a região é cheia de Locks, uns doces, outros salgados, porque se misturam com o mar. Todos têm uma água cristalina, que espelha perfeitamente a paisagem da região.

Como ficamos pouco tempo na Escócia, deu vontade de voltar outra vez. No verão, claro. Porque as outras estações não devem ser pra qualquer um. Haja blusa de frio!

PS 1: indicação pra quem for a Edimburgo – o Hotel Edinburgh First at University é otimo, tem um preço bom, serviço legal, localização boa e um café da manhã excelente. Fica nas acomodações dos estudantes da universidade, mas é muito mais confortavel que a maioria desse tipo de alojamento. Se voltar pra la, ja sei onde ficar hospedada.

PS 2: todas as nossas fotos da viagem estão aqui.

08/08/2009

Vou embora de Paris

Mas eu volto! Viajamos hoje para Londres. Ficamos la 8 dias e, depois, seguimos para Edimburgo. Não sei se vou conseguir atualizar o blog de la. Volto no dia 19 de agosto. São as merecidas férias do Arthur.

07/08/2009

A cidadela da luz perfeita

St-Paul de Vence é uma cidade bem pequena – parece uma vila – no sul da França. Resolvemos conhecer o lugar porque ficamos sabendo que, depois do Monte St-Michel, era o segundo local mais visitado na França. Mas o que teria essa cidadela de tão especial pra atrair tanta gente?

Saímos de Nice numa mini-excursão – um grupo de sete pessoas e um guia – para um roteiro de degustação de vinhos, seguido de um passeio pela concorrida St-Paul de Vence. Partimos rumo ao interior e paramos primeiro numa vinícola familiar que ficava no caminho para degustar os vinhos da sul da França, principalmente os rosés, especialidade da região. Os vinhos de la são mais fortes, mais alcoólicos e passam por um processo muito diferente daquele que conhecemos no Vale do Loire. Se no Vale do Loire e, de fato, na maioria das vinícolas daqui, preserva-se o vinho a baixas temperaturas no processo de produção, esses vinhos da Provence e da Côte d’Azur passam um tempão ao ar livre, numa fermentação natural feita pelo sol, o que faz com que as safras sejam muito diferentes umas das outras.

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Depois da parada para degustação, seguimos para nosso destino principal. St-Paul de Vence é uma aldeia murada, como muitas outras da França, com suas casas medievais de pedra.

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Algumas construções medievais são autênticas, mas muita coisa foi restaurada e reconstruída. Fica situada numa colina e, embora distante, da pra ver o mar de la. As ruelas de pedra são hiper charmosas e o que impressiona, de fato, é a quantidade de galerias de arte.

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A cidadela tem hoje arte por todo canto. E tem uma historia que atrai os artistas. Picasso descobriu a vila no começo de sua carreira. Como outros artistas, ficou encantado com a luz do local. Os artistas dizem que ha na região um tom de amarelo que não se vê em lugar algum. Uma luz que inspirava e ainda hoje atrai os pintores.

Verdade que, além da luz e da beleza da região, ajudou bastante a propaganda que Picasso fez para seus amigos. Na época de inicio de carreira, o artista espanhol não tinha dinheiro e encontrou apoio do dono do albergue La Colombe d’Or. Dizem que ele falava para os amigos: “Aqui é ótimo, ele me deixa morar e comer de graça. Em troca eu dou a ele alguns desenhos que produzo”. Assim, acabaram passando também pelo Colombe d’Or artistas como Matisse, Miro, Braque, Modigliani e Signac. Hoje, La Colombe d’Or é um hotel e restaurante com preços salgados. Os clientes podem admirar os inúmeros quadros dos grandes artistas que trabalharam no local.

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A gente aproveitou pra comprar duas telas impressas, baratas, em St-Paul de Vence, com paisagens tipicas da Provence. Olhamos algumas galerias com obras únicas e originais de artistas contemporâneos. Gostamos de muita coisa, mas, é claro, o preço é sempre proibitivo para a gente e para a maioria dos turistas. Porém, sempre tem aquelas galerias que fazem impressões e gravuras para vender aos turistas como souvenir. Eu, particularmente, achei tudo mais interessante do que o que costumo ver aqui em Paris nos bouquinistes e na Place du Tertre.

04/08/2009

Aviso aos amigos jornalistas

Essa dica é para os colegas de profissão, nobres jornaleiros que trabalham demais e recebem no fim do mês aquele holerite que parece uma piada. Se você é daqueles que deixa de almoçar pra filar o coffee break da coletiva de imprensa daquele banco ou daquela empresa endinheirada, ou fica feliz com qualquer jaba ou presentinho vagabundo das assessorias de imprensa é com você mesmo que estou falando. Atenção: quando vier a Paris, lembre-se de que jornalista não paga para entrar em quase nenhum museu ou exposição!

Verdade que é melhor ter a carteirinha internacional de jornalista. Eu, bobinha, achava que so valia essa carteirinha (que não tenho, porque não sou sindicalizada), e sempre pagava pra entrar. Até que, das ultimas vezes que fui para lugares pagos – Basilica de St-Denis e Esgotos de Paris – mencionei que era jornalista e me pediram credencial. Eu so tinha o cracha que uso para entrar no prédio em que trabalho – não é nem meu cracha da empresa, é so um crachazinho vagabundo pra entrar no prédio em que esta escrito Função: Jornalista Pauteiro, assim mesmo, em português, claro. E, pra minha surpresa, aceitaram e entrei de graça. Viu so que maravilha?

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04/08/2009

Sakountala (o abandono)

Sakountala, segundo uma lenda indiana, era a filha de um sábio. Um rei poderoso, numa de suas andanças fora de seu domínio, vê Sakountala e se apaixona. Para sorte dele, ela também se apaixona. Os dois ficam juntos e têm um filho. O rei volta para seu reino, para começar as preparações do casamento com Sakountala. Ela fica e um dia acaba amaldiçoada por um feiticeiro. A maldição: o rei não lembraria nunca mais dela, assim como um homem bêbado que não se lembra do que fez ou do que falou no dia anterior. Sakountala vai ao encontro do rei, coberta, e conta a historia, mas ele não a reconhece. Ela fica desolada com a humilhação e se recolhe. Alguns anos mais tarde, o rei reencontra a mulher, a reconhece e, de joelhos, pede perdão pelo abandono, pelo esquecimento. Ela aceita o perdão.

Camille Claudel deu o nome de Sakountala a uma de suas esculturas mais bonitas, a primeira escultura dramática de sua autoria. No livro Une femme, que estou lendo, encontrei uma passagem muito bonita, que acontece depois que Camille pega seu amante Rodin no flagra com uma de suas modelos. Camille reflete e diz a Rodin que ela não é como sua esposa, que não tem ciumes e entende que um escultor tenha outros casos. E que ela, como também é uma artista, acha que devia começar a ter outros casos. Rodin pede perdão e se apavora com a possibilidade de perdê-la para outro homem.  Nesse momento, a biografa descreve uma cena que teria gerado a obra Sakountala. Destaquei esse trecho que achei lindo no livro, que é bem romantizado, como boa parte dessa biografia. Eu gostei, mesmo assim. Como disse minha amiga Kél nesse texto, a biografia perde muito da arte quando se contenta com o relato fiel dos fatos. O trecho abaixo – que eu destaquei em francês, mas também fiz a tradução – é uma descrição de uma cena terna entre os dois amantes, totalmente baseada na obra de Camille:

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Camille le regardait, cet enfant qui s’agrippait. Elle reculait, et lui s’accrochait comme si elle allait le quitter, les yeux desespérés, implorants. Démuni, un homme démuni, à genoux, un visage ravagé (…)

Elle penche la tête vers lui, l’embrasse à la tempe, délicate, ineffablement tendre, elle lui donne tout, son coeur même…”Monsieur Rodin”(…)

Les bûches flambent. Elle s’aperçoit, elle l’aperçoit, reflétés, démultipliés par les miroirs, la grande flambée derrière eux. Il devient l’autel por le sacrifice, elle la proie, elle se penche sur lui, joue contre sa joue, encore debout, elle est tout entière en train de glisser, contre lui, agenoillé. Il la retient encore mais déjà la tête s’affaisse. Un des bras pend, sans force…Dans un dernier geste, elle presse sa main contre son coeur – une douleur sorde qui serre, la joie trop forte de le retrouver, la seconde avant le contact, elle s’abandonne alors, elle meurt…

Camille o olhava, essa criança que se agachava. Ela recuava e ele se agarrava a ela como se ela fosse lhe deixar, os olhos desesperados, suplicantes. Indefeso, um homem indefeso, de joelhos, um rosto ferido…

Ela inclina a cabeça em direção a ele, beija sua têmpora, delicada, inefavelmente terna, ela lhe da tudo, até seu coração…”Monsieur Rodin”.

A lenha crepita. Ela se enxerga e lhe enxerga, refletidos, multiplicados pelos espelhos, a grande chama atras deles. Ele se torna o altar para o sacrifício e ela, a presa. Ela se inclina sobre ele, com a face encostada na dele, e desliza em direção a ele, ainda em baixo, ajoelhado. Ele a retém ainda, mas sua cabeça ja se curva. Um braço pendente, sem força…Num ultimo gesto, ela pressiona a mão contra o coração – uma dor surda que bloqueia, a alegria forte demais de reencontra-lo, o segundo antes do contato, ela então se abandona, ela morre…