Arquivo do mês: março 2009

Os amigos do Arthur

Ontem saimos, eu e o Thur, com os colegas dele do CEA – cinco franceses e uma alemã que ja vive aqui ha mais de um ano. Curioso é que antes de chegarmos aqui na França todo mundo comentava que os franceses eram frios, chatos, que não gostavam de socializar com os estrangeiros. Ouvimos isso de gente que morou um tempo em Paris e em outras cidades francesas. Nao sei se foi sorte ou foi o charme irresistivel do Thur mesmo (hehehe), mas desde o primeiro dia de trabalho dele, ele recebe convites para sair com o pessoal, quase todos os dias da semana! A gente so não vai sempre porque não da, falta tempo e grana pra tanto programa.

Achei o grupo simpatico, uns mais que outros, mas realmente eles têm um jeito um poquinho mais formal, mais fechado que os brasileiros. Por isso, acho que o jeitinho do Arthur contou sim. Explico (se bem que quem conhece bem o menino ja deve ter entendido…rsrsrs). O Arthur é assim: nao tem muita facilidade com idiomas, mas sabe se comunicar muitissimo bem; fez até o basico 3 de francês, mas conversa com os gringos todo dia na lingua deles mesmo, apelando para o inglês so quando a expressão e a mimica parecem não dizer nada.

Eu, que ja falo um pouco melhor, fico com medo de errar e penso varias vezes antes de falar. O Arthur não quer saber, sai falando. E o pior é que da certo. Quando a gente ta com alguma duvida na rua, enquanto eu tô la quebrando a cabeça, analisando mapas e caminhos, ele ja perguntou para um desconhecido e ja descobriu tudo, o malandro. E claro que quem fala com todo mundo de vez em quando recebe uma resposta mal educada, ou resposta nenhuma. Mas ele tem por lema o inspirador “won’t take a no for an answer”. E ai ja viu, ele acaba sabendo um monte de coisas, conhecendo gente e fazendo amizade. Tenho muito o que aprender com ele.

Mas, voltando ao nosso programa de ontem. Fomos a uma brasserie simpatica, bem tipica daqui, essa ai da foto.

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Como o nome sugere, ela fica na Rua Daguerre, perto da Praça Denfert Rocherou, onde estivemos no sabado. A rua é uma graça durante o dia, com suas lojinhas de comida, uma atras da outra. Além das brasseries, cafés, bistrots e restaurantes, até a tarde ficam abertas lojinhas de queijo, de vinho, bancas de frutas, de peixes e frutos do mar, de ostras, chocolates e outras especialidades francesas.

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Demoramos um poquinho para encontrar a brasserie ideal, porque os amigos do Thur queriam jogar Settlers of Catan, um jogo de tabuleiro que precisa de um certo espaço e de um lugar que permita o jogo (desde que as pessoas consumam, é claro). Achamos a brasserie que acolheu o grupo e jogamos uma partida, conversamos, bebemos e comemos.

Eu ja tinha jogado Catan no Brasil, numa luderia, então ja estava familiarizada com o jogo, muito apreciado pelos franceses. So tive que começar a pensar nos elementos do jogo em francês: blé, bois, argile, pierre… Entender regras de jogo de tabuleiro em francês é facil. Dificil é entender a conversa informal do grupo, as piadas, as referências. Exige um francês hiper mega plus avançado. So não fiquei frustrada porque o Arthur ja tinha me alertado, que ele fica boiando nas conversas deles na hora do almoço. Isso sim é um curso intensivo de francês.

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Uma Paris sombria

Sábado de sol, a cidade tava tão bonita e decidimos fazer o que? Visitar as catacumbas! Isso mesmo. Mas, para aproveitar o bom tempo, fomos a pé ao local, que é bem próximo. Saímos da Cité, passamos por dentro do Parc Montsouris e pegamos uma avenida grande e larga, a Avenue René Coty, que vai até a Place Denfert Rochereau, onde fica a entrada das catacumbas.

Uma fila para entrar, um tempinho esperando, e soubemos um pouco mais sobre os subterrâneos parisienses, entrando na internet pelo iphone do Thur (e não é que o aparelhinho é útil mesmo!). Paris tem cerca de 300 km de um subsolo composto de cavernas e túneis. As chamadas catacumbas, que os turistas podem visitar, não chegam a dois km, mas são corredores compostos de ossos humanos. Calcula-se que estejam lá quase 6 milhões de mortos, cujos esqueletos – principalmente os crânios, tíbias e fêmures – formam desenhos harmoniosos (será que a palavra seria essa?) nas paredes. As primeiras ossadas foram levadas para o local em 1786. Outras levas foram sendo transferidas nos anos seguintes, para desafogar os cemitérios, que estariam se tornando insalubres. No começo, os ossos eram simplesmente jogados nas catacumbas. A partir de 1810, decidiu-se pela arrumação do local, com a construção de paredes de ossos que formam desenhos geométricos.

Para quem quer se aventurar por lá, é bom saber que é preciso descer muitos muitos lances de uma escada sinuosa, andar um bocado num ambiente com ar pesado (em todos os sentidos) e depois subir uma outra escada parecida com a primeira. Mas é tudo bem sinalizado e há iluminação, muito diferente das primeiras visitas turísticas ao local, feitas à luz de velas.

Explorei o local bravamente até chegar na porta do Império dos Mortos. Aí, nos deparamos com esse aviso aí. Olha lá minha cara de medo e o Arthur dando uma de corajoso.

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Chegando nesse ponto, são pilhas e pilhas e pilhas de ossos. No começo, é um pouco chocante. Mas é tanta caveira que a gente se acostuma. É verdade, não dá medo de fato em ninguém.

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Mas o clima é um tanto pesado, ao mesmo tempo que fascinante, porque você está caminhando entre os despojos de anônimos que viveram no século de 19 e de algumas figuras conhecidas, vítimas (e também carrascos) da época do Terror, da Revolução Francesa. Estão lá os restos mortais do cientista Lavoisier, do político Danton e de seus seguidores, mortos na guilhotina a mando de Robespierre. Este também acabou na guilhotina e seus ossos juntaram-se aos de Danton.

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Junto aos corredores de ossos, frases, ditados e poemas, em latim e em francês, que tratam sobre a morte. Nada oportunista, pois não se trata de um parque temático, de entretenimento, como algumas pessoas enxergam o lugar. Claro que a abertura das catacumbas para visita é também uma estratégia de turismo, mas serve como memorial. Nas frases que mencionei, há algumas referências à memória e à fragilidade da vida. Difícil sair dali sem se sentir profundamente tocada, sem refletir.

No fim da visita, depois de subir a escadaria, uma mulher que trabalha na segurança confere as bolsas e mochilas de todo mundo. Do lado dela tinha uma mesinha com dois crânios e vários ossos menores. Ela contou que aquilo era o que tinha sido encontrado na bolsa das pessoas durante a semana! E que é sempre assim. Isso porque as pessoas sabem que  a lei francesa prevê punições para quem tenta roubar os ossos lá de dentro. Os avisos estão por toda parte.

Achei essa tentativa de pilhagem tão absurda. Não só pela morbidez de alguém que quer levar pra casa um crânio humano, mas pelo desrespeito aos mortos e à história. Aqueles ossos foram colocados lá de uma determinada maneira, com um desenho específico, no século 19, e tem gente que se vê no direito de tirar do lugar e roubar! Se todo mundo agisse assim nãoiía sobrar nada de nada, não seria possível preservar o patrimônio histórico, não seria nem aconselhável abrir o lugar para visitação. É uma falta de respeito, de cidadania e de sensibilidade que realmente me revolta.

Enfim, saímos das catacumbas em outra rua, outro lugar, ainda no bairro de Montparnasse. Resolvemos procurar um restaurante para almoçar. Andamos, andamos, andamos e chegamos num restaurante simpático. Comemos por lá e, quando saímos, o Arthur me avisou: olha onde a gente veio parar, estamos na frente do Cemitério de Montparnasse!

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Eu queria visitar o cemitério, para ver alguns túmulos de gente como Baudelaire, Sartre e Serge Gainsbourg, mas eu não queria passar a tarde no cemitério procurando túmulos, porque daí seria dark demais da conta, né? Imagina as pessoas me perguntando: o que você fez no sábado? Ah, nada demais, passei a manhã nas catacumbas e a tarde no cemitério. Não, definitivamente não dava. Mas também não quis perder a oportunidade de dar uma olhadinha. Resolvemos então procurar só o túmulo do Sartre e da Simone. Depois a gente sairia de lá.

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De lá, fiz questão de passar num lugar bonito, que ainda não tinha conhecido: o Jardim de Luxemburgo. Agora sim, é para lugares como esse que os franceses vêm quando faz sol.

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Como dá pra ver, o lugar estava cheio. Era gente tomando sol, fazendo pique-nique, jogando tênis, jogando basquete, passeando com os bebês (num jardim lindo só para bebês!). Bem diferente dos programas anteriores, não? Ah, e uma marca do Luxemburgo, os barquinhos coloridos. As crianças ficam com varetas de madeira empurrando seus barquinhos coloridos na água.

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Saímos do parque, fomos para casa (dessa vez de RER, porque estávamos cansados de andar) para jantarmos e nos preparar para uma festa organizada por uma rádio francesa que o Arthur escuta. A festa foi no 20 arrondissiment, um lugar que eu quero descrever em outro post. A festa tava lotada e animado (animação à francesa, que é bem mais contida que a brasileira), com shows de bandas que nem eu nem grande parte das pessoas que estava ali conhecia. Só algumas pessoas e o Arthur (ele adora descobrir bandas indies desconhecidas) conheciam as músicas e chegavam até a cantar junto.

O sábado foi longo, terminou de madrugada. Domingo, portanto, foi dia de descansar. O tempo feio e friiiiiiio lá fora contribuiu para o descanso.

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Paris vai ficando mais leve

No meu segundo fim de semana em Paris, minha vista da janela era essa ai.

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Quando faz sol aqui, as pessoas nas ruas ficam mais sorridentes. Fim de semana ensolarado, então, e uma delicia. Como ainda estamos em março, qualquer solzinho e motivo de comemoração. No sabado, saimos de casa logo depois do almoço e vi que a paisagem tinha mudado. Ja aqui dentro da Cité os galhos secos do inverno vão aos poucos sendo substituidos pelas flores que começam a despontar, aqui e ali.

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Apesar de toda a luminosidade, quero lembrar que ainda vale a regrinha da lição n° 1. Minha professora de francês daqui disse que em abril o tempo vai estar lindo todos os dias, mas o frio continuara o mesmo. Ela me contou que os franceses têm um ditado sobre a diferença crucial entre os meses de abril e maio. E assim:

En avril ne te découvres pas d’un fil. En mai fais ce qu’il te plaît.

Significa algo como: em abril não se engane com o sol e não se descubra nem de um fio; mas em maio, quando for calor de verdade, faça o que você quiser. A professora, que é divertidissima, contou isso em classe, fazendo um sinal de quem ia fazer ali mesmo um strip-tease, acrescentando um: uh-huuu! Diante dos olhares de espanto ela acrescentou: mas é assim gente, quanto tem um pouco de calor as parisienses ja começam a usar mini-saia, shortinho, tem que aproveitar, né?

Mas voltando ao meu fim de semana… Para lembrar que nos ainda estamos no inverno, o tempo começou a fechar no fim da tarde de sabado. Mas as pessoas conservaram a felicidade da manhã, enchendo as ruas. Em alguns cantos, de repente, apareciam pequenas lembranças do calor brasileiro: uma roda de capoeira perto de Les Hales, uma banda de jovens em frente à fonte de St.-Michel, no Quartier Latin, uma batucada na Place des Vosges, no Marrais.

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No domingo visitamos o Museu Carnavalet, que conta a historia da cidade de Paris, da pré-historia até o século 20. Como na maioria dos museus da prefeitura de Paris, a entrada é gratuita. Eu tinha a impressão de que o lugar era menor. Estava enganada, a coleção permanente é grande, espalhada por dois dos chamados hotéis (que na verdade eram residências de nobres), o Carnavalet, construido em 1548 e o Hôtel  Peletier de Saint-Fargeau, de 1688. Pra quem estiver sem tempo, uma visita aos jardins dos prédios ja vale a pena.

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Para quem tem tempo, aconselho dar uma espiada na coleção do museu. Tem brasões e grandes quadros que os estabelecimentos comerciais usavam no século 18 para anunciar seus produtos e para indicar sua localização, coisa muito importante na época, porque ainda não havia numeração nas ruas. Além desses brasões, quadros muito bonitos e peças historicas que foram feitas na cidade de Paris, como a Declaração dos Direitos do Homem, da Revolução Francesa, de 1789.

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Pas de photo

Oui, comprei um laptop! Teve que ser com teclado frances mesmo. Mas ele é lindo! So não coloco a foto dele aqui pq não to conseguindo…unf Tenho que esperar o Arthur para ele me explicar de novo como que eu passo essas fotos para o computador (sim, eu sou meio lesada com tecnologia em geral)

Mas estou evoluindo, olha so: ja compramos o laptop e dois celulares. O do Arthur é o iPhone, pq o menino adora uma novidade tecnologica. O meu é um branquinho da Hello Kitty….hehehe. Eu, com o meu conhecimento nulo de tecnologia, escolho o aparelho pelo preço e pela aparencia, e esse era tão fofo… E o Thur disse que o aparelhinho era bom, que inclusive é melhor que o dele para tirar fotos; e ele ainda faz videos!

Tenho muita coisa pra contar, mas não tem graça sem as fotos, que ficaram no computador…do Arthur, que ele levou para o trabalho, como faz todo santo dia. O blog também esta meio capenga, preciso linkar blogs de amigos, escrever o About Me e ainda quero criar uma seção Plat du Jour. Outras coisas pendentes: comprar um mouse, ver se a HP pode trocar meu teclado ou se acho adesivos para colar nas teclas (alguém sabe onde achar isso em Paris, s’il vous plait?) Senão vou ter que continuar escrevendo assim, sem todos os acentos e mais devagaaaaaaaaaar…

Agora deixa eu parar de reclamar dessas coisinhas minimas e dar aqui um serviço pra brasileiros que vem para a Europa.

Lição n°  1: Se vc acorda no inverno e ve pela janela pessoas loirissimas e branquelas fazendo cooper de camiseta e bermuda, isso não significa que pode fazer o mesmo. Como bom cidadão tupiniquim, ignore a moda local e vista-se apropriadamente com meia calça de lã, calça por cima, blusa, blusa, blusa, casacão e aquele cachecol bem quentinho, ok?

Adendo à lição n° 1:  a regra deve ser cumprida à risca se vc tem como vizinhos os alojamentos da Noruega e da Suécia.

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Pra lá e pra cá

Nosso primeiro fim de semana aqui. Decidimos planejar bem os passeios, pra não correr o risco de sair por aí, na ansiedade de ver tudo e não conhecer de fato nada.

Então escolhi começar pelo começo, na Ile de la Cité, onde está o ponto zero – marca bem em frente à igreja de Notre Dame a partir de onde se medem todas as distâncias de Paris e da França. Combinei assim com o Arthur: se der tempo pra ver tudo lá, conhecemos também a Ile St-Louis. Pra quem não conhece, a região é o coração de Paris, são duas ilhas fluviais, no Sena, que acessamos por pontes, tanto a pé como de carro.

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Depois de ver o famoso ponto zero (e de eu ter feito o Arthur passar vergonha dando voltinhas no círculo desenhado no chão, porque vi duas turistas americanas fazendo isso, para, segundo elas, poder voltar sempre para Paris), visitamos a cripta arqueológica, que fica debaixo da praça em frente à Notre Damme.

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No local foram encontrados vestígios da tribo celta dos parisii – que habitou o local antes da chegada dos romanos – além de ruínas de casas e prédios públicos de Luthécia, nome que a cidade tinha no início do período romano.

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Achei bem interessante ver a evolução da cidade em todos os períodos – pré-romano, romano, da Idade Média – até os dias de hoje. Como todo museu bem pensado da Europa e dos EUA, eles conseguiram chamar o interesse do público geral para o que seria um monte de pedras amontoadas, não fossem as explicações em maquetes, vídeos e projeções – que dão vida àquelas ruínas. Fiquei sabendo que Paris tem vários locais com ruínas romanas. Descobriram um sítio arqueológico grande recentemente, em 2004, ruínas de um antigo balneário romano. São tantas as pessoas que viveram e construíram prédios monumentais nesse lugar, que tenho a impressão de que, na Europa, basta você demolir uma casa para construir outra coisa que, no processo, você vai encontrar vestígios romanos, medievais ou anteriores.

Depois de explorar Lutécia, decidimos dar uma volta inteira na ilha. O tempo estava feio, frio e nublado. Mas estávamos felizes, tão empolgados que nem saímos com cara de broa nas fotos (viu Kél?) Fato raro, saímos sorrindo em quase todas.

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O único problema é que não conseguimos nos ater a nosso plano inicial. Demos uma volta na Ile de la Cité, entramos na Notre Dame, passeamos pela Ile de St-Louis (uma graça, por sinal). E não conseguimos parar por aí. Foi um tal de: Olha, se andarmos um pouco mais, chegamos ao Louvre! Vamos andar pelo Jardin de Tulleries? daqui da praça da Concórdia, vamos até a Torre Eiffel num instante, vamos? Fomos, e assim passamos por vários lugares e, quando nos demos conta já era bem tarde. Saímos de manhã e voltamos para casa só à noite, exaustos, tendo passado por lugares que já nem nos lembrávamos mais, porque eles se embaralharam na nossa cabeça. Acho que a ansiedade foi grande, não deu pra controlar. Domingo a gente ainda visitou Montmartre, haja fôlego. Agora estamos domando a ansiedade e colocando na cabeça que não somos turistas, que tem pouco tempo para ver uma cidade que é um mundo, mas moradores de Paris (que chique isso, não?)

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Minhas cozinhas

Assim que chegamos, vimos um aviso bilíngue nos corredores do nosso andar: “Reunião dos residentes do quarto andar para decidir regras de uso da cozinha comunitária”. Eu e o Arthur moramos num quarto com cozinha. Então, teoricamente, não precisaríamos usar a cozinha comunitária, mais frequentada por quem mora sozinho. Digo teoricamente porque já usamos muito o lugar antes de comprar nossos utensílios básicos. E percebemos que volta e meia vamos frequentar a cozinha comum, pra usar o forno e o microondas.

Explico: as suítes com “cozinha” têm, na verdade, uma mesinha de dois lugares e um cantinho com pia, armários, frigobar e uma chapa elétrica de duas bocas. A minha é essa aí:

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Mas voltando à reunião, o que eu achei curioso foi o tamanho da pauta para discutir uma coisa que parece tão simples: limpeza da cozinha, limpeza dos panos de prato, compra de novos eletrodomésticos, compra de material, definição de uma contribuição mensal, regras de uso…Achei legal ir para a reunião para conhecer melhor as pessoas do meu andar. A maioria do pessoal é do Brasil. São doutorandos, grande parte da Sorbonne, dos cursos de Ciência Política, Sociologia, História, Filosofia e outros. Viu que chique? A gente pensa assim: doutorando da Sorbonne? Nossa, deve ser um crânio, mas meio metido a besta, né? Que nada, as pessoas me pareceram bem ” normais”, bem simples. Ninguém fala difícil, muito pelo contrário.

Apesar de a maioria ser brasileira, tínhamos entre nós um paquistanês e uma dinamarquesa, então toda a discussão teve que ser em francês. Eu achei ótimo, deu pra treinar o idioma e perceber (para meu alívio) que muita gente consegue se comunicar razoavelmente com um nível de francês parecido com o meu, principalmente quando os interlocutores também são estrangeiros. Pra mim, o ponto alto da reunião (que durou 1 hora e meia!) foi a fala de um doutorando de Ciência Política baiano engraçadíssimo que não sabe falar francês, mas que tenta mesmo assim, na coragem: “Je pense que quem va peguer les choses dos outros va peguer de quelquer jeitô. Nous não pouvon pas fazer rien” Agora, imagine essa frase com aquele sotaque leve e despreocupado dos baianos. Genial!

A cozinha comunitária tem pratos sujos guardados no armário, panos de prato que não são lavados há séculos e poucos eletrodomésticos, mas tem também um povo legal e divertido, como esse vizinho do francês abrasileirado (ou seria português afrancesado?)

Mesmo assim, a gente tava com muita vontade de poder comer alguma coisa em casa, sossegado. Então, na quinta-feira, eu e o Thur saímos para comprar alguns itens necessários: pratos, copos, talheres, panelas. Ainda falta muita coisa, mas tá dando para o gasto. Hoje, fiz um jantar bem levinho na nossa pequena cozinha. Quando o Thur chegou, cansado, o jantar já tava na mesa.

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O prato do dia foi: salada de folhas com tomate cereja, temperada com azeite extra-virgem de Creta (engraçado, né? é que era o mais barato do supermercado), molho de vinagre e mostrada dijon e queijo ralado; baguete com manteiga na chapa (tinha que ter um toque brasileiro!). Para acompanhar: queijo da Normandia e vinho Bordeaux. Ah, a sobremesa: chocolate suisso. Caprichei, né?

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Primeiras impressões

 

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Paris. Ah, Paris… Ela é tudo o que dizem e mais um pouco. Cheguei aqui numa segunda-feira, dia 2 de março, à tarde. Um tempo bonito, bonito. Frio. Para brasileiros, há que ressaltar. Mas um sol brilhante, céu azul.

Do aeroporto pegamos um táxi até a Cité Universitaire. De cara não vi nada da tão falada chatisse dos franceses. Vi foi um cambojano simpaticíssimo que colocou nossas malas pesadas em seu carro e nos levou até a Cité, no Boulevard Jourdan.

Gostei do caminho, embora ele não faça parte de nenhum guia turístico. Do aeroporto Charles de Gaulle até o Boulevard Jourdan, bem no sul da cidade, seguimos vias periféricas. Não é a Paris dos cartões postais, mas é muito interessante. Das casas antigas próximas às vias e avenidas congestionadas ao velhinho francês de boina que mal cabia num mini-micro-carro e que dirigia tranquilamente, fumando um charuto.

Depois de uma corrida que nos custou 45 euros, chegamos a nosso novo lar, a Maison du Brésil, um prédio considerado patrimônio histórico, cujas regras infinitas de funcionamento merecem um post à parte. Nosso apartamento tem 24 metros quadrados. Quarto, banheiro e cozinha. O suficiente pra nós dois.

Como há milhares de coisas burocráticas para resolver, ainda estamos nos instalando e nos ambientando. Os dois primeiros dias estavam lindos. Na terça fiz um passeio pelo parque Montsouris, em frente à Cité. Um espaço verde bonito com um monte de mães e babás brincando com bebês e crianças pequenas, casais de namorados, pessoas levando cachorros para passear. Junto aos sinais de “Proibido andar de bicicleta aqui” ou “Proibido fumar, um aviso à francesa: “La bonheur, ça se respect”. Dá pra não se apaixonar por essa cidade?

Tem mais: as pessoas realmente carregam baguettes debaixo do braço, consomem litros de vinho e muito queijo! Algumas nos dizem bonjour na rua e comentam sobre o bom tempo. Bom tempo? Na quarta-feira a história foi outra. Olho pela janela: cinza. Dizem que a calefação aqui na Maison deixa a temperatura a 20 graus. Hoje, não sei não. Saímos na rua. Temperatura de geladeira descongelando, sabe? Friiiio, chovendo, chovendo, chovendo.

Uma menina que mora aqui na Maison disse que nós tivemos sorte, porque chegamos em dias atípicos. E que os franceses estavam estranhando esse calor todo (hein???) nessa época. Acho que Paris se preparou só pra receber a gente…rsrsrs. Só pra que eu amasse essa cidade e para convencer o Arthur de que aqui é legal sim (ele diz que prefere Londres, imagina?).

A quarta-feira, meu terceiro dia aqui, foi assim: temperatura de geladeira, como eu falei antes, pessoas andando rápido pelas ruas e fumando e bufando, fumando e bufando e assim sucessivamente, corvos dando rasantes sob nossas cabeças. É como se Paris perguntasse: gosta de mim mesmo assim? Oui, mademoisellle! Agora já era, já me apaixonei.

 

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