Uma Paris sombria

Sábado de sol, a cidade tava tão bonita e decidimos fazer o que? Visitar as catacumbas! Isso mesmo. Mas, para aproveitar o bom tempo, fomos a pé ao local, que é bem próximo. Saímos da Cité, passamos por dentro do Parc Montsouris e pegamos uma avenida grande e larga, a Avenue René Coty, que vai até a Place Denfert Rochereau, onde fica a entrada das catacumbas.

Uma fila para entrar, um tempinho esperando, e soubemos um pouco mais sobre os subterrâneos parisienses, entrando na internet pelo iphone do Thur (e não é que o aparelhinho é útil mesmo!). Paris tem cerca de 300 km de um subsolo composto de cavernas e túneis. As chamadas catacumbas, que os turistas podem visitar, não chegam a dois km, mas são corredores compostos de ossos humanos. Calcula-se que estejam lá quase 6 milhões de mortos, cujos esqueletos – principalmente os crânios, tíbias e fêmures – formam desenhos harmoniosos (será que a palavra seria essa?) nas paredes. As primeiras ossadas foram levadas para o local em 1786. Outras levas foram sendo transferidas nos anos seguintes, para desafogar os cemitérios, que estariam se tornando insalubres. No começo, os ossos eram simplesmente jogados nas catacumbas. A partir de 1810, decidiu-se pela arrumação do local, com a construção de paredes de ossos que formam desenhos geométricos.

Para quem quer se aventurar por lá, é bom saber que é preciso descer muitos muitos lances de uma escada sinuosa, andar um bocado num ambiente com ar pesado (em todos os sentidos) e depois subir uma outra escada parecida com a primeira. Mas é tudo bem sinalizado e há iluminação, muito diferente das primeiras visitas turísticas ao local, feitas à luz de velas.

Explorei o local bravamente até chegar na porta do Império dos Mortos. Aí, nos deparamos com esse aviso aí. Olha lá minha cara de medo e o Arthur dando uma de corajoso.

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Chegando nesse ponto, são pilhas e pilhas e pilhas de ossos. No começo, é um pouco chocante. Mas é tanta caveira que a gente se acostuma. É verdade, não dá medo de fato em ninguém.

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Mas o clima é um tanto pesado, ao mesmo tempo que fascinante, porque você está caminhando entre os despojos de anônimos que viveram no século de 19 e de algumas figuras conhecidas, vítimas (e também carrascos) da época do Terror, da Revolução Francesa. Estão lá os restos mortais do cientista Lavoisier, do político Danton e de seus seguidores, mortos na guilhotina a mando de Robespierre. Este também acabou na guilhotina e seus ossos juntaram-se aos de Danton.

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Junto aos corredores de ossos, frases, ditados e poemas, em latim e em francês, que tratam sobre a morte. Nada oportunista, pois não se trata de um parque temático, de entretenimento, como algumas pessoas enxergam o lugar. Claro que a abertura das catacumbas para visita é também uma estratégia de turismo, mas serve como memorial. Nas frases que mencionei, há algumas referências à memória e à fragilidade da vida. Difícil sair dali sem se sentir profundamente tocada, sem refletir.

No fim da visita, depois de subir a escadaria, uma mulher que trabalha na segurança confere as bolsas e mochilas de todo mundo. Do lado dela tinha uma mesinha com dois crânios e vários ossos menores. Ela contou que aquilo era o que tinha sido encontrado na bolsa das pessoas durante a semana! E que é sempre assim. Isso porque as pessoas sabem que  a lei francesa prevê punições para quem tenta roubar os ossos lá de dentro. Os avisos estão por toda parte.

Achei essa tentativa de pilhagem tão absurda. Não só pela morbidez de alguém que quer levar pra casa um crânio humano, mas pelo desrespeito aos mortos e à história. Aqueles ossos foram colocados lá de uma determinada maneira, com um desenho específico, no século 19, e tem gente que se vê no direito de tirar do lugar e roubar! Se todo mundo agisse assim nãoiía sobrar nada de nada, não seria possível preservar o patrimônio histórico, não seria nem aconselhável abrir o lugar para visitação. É uma falta de respeito, de cidadania e de sensibilidade que realmente me revolta.

Enfim, saímos das catacumbas em outra rua, outro lugar, ainda no bairro de Montparnasse. Resolvemos procurar um restaurante para almoçar. Andamos, andamos, andamos e chegamos num restaurante simpático. Comemos por lá e, quando saímos, o Arthur me avisou: olha onde a gente veio parar, estamos na frente do Cemitério de Montparnasse!

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Eu queria visitar o cemitério, para ver alguns túmulos de gente como Baudelaire, Sartre e Serge Gainsbourg, mas eu não queria passar a tarde no cemitério procurando túmulos, porque daí seria dark demais da conta, né? Imagina as pessoas me perguntando: o que você fez no sábado? Ah, nada demais, passei a manhã nas catacumbas e a tarde no cemitério. Não, definitivamente não dava. Mas também não quis perder a oportunidade de dar uma olhadinha. Resolvemos então procurar só o túmulo do Sartre e da Simone. Depois a gente sairia de lá.

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De lá, fiz questão de passar num lugar bonito, que ainda não tinha conhecido: o Jardim de Luxemburgo. Agora sim, é para lugares como esse que os franceses vêm quando faz sol.

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Como dá pra ver, o lugar estava cheio. Era gente tomando sol, fazendo pique-nique, jogando tênis, jogando basquete, passeando com os bebês (num jardim lindo só para bebês!). Bem diferente dos programas anteriores, não? Ah, e uma marca do Luxemburgo, os barquinhos coloridos. As crianças ficam com varetas de madeira empurrando seus barquinhos coloridos na água.

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Saímos do parque, fomos para casa (dessa vez de RER, porque estávamos cansados de andar) para jantarmos e nos preparar para uma festa organizada por uma rádio francesa que o Arthur escuta. A festa foi no 20 arrondissiment, um lugar que eu quero descrever em outro post. A festa tava lotada e animado (animação à francesa, que é bem mais contida que a brasileira), com shows de bandas que nem eu nem grande parte das pessoas que estava ali conhecia. Só algumas pessoas e o Arthur (ele adora descobrir bandas indies desconhecidas) conheciam as músicas e chegavam até a cantar junto.

O sábado foi longo, terminou de madrugada. Domingo, portanto, foi dia de descansar. O tempo feio e friiiiiiio lá fora contribuiu para o descanso.

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11 Comentários

Arquivado em fim de semana, jardim, museu, Paris, passeio

11 Respostas para “Uma Paris sombria

  1. Ah, adorei esse texto!

    Não tive tempo de conhecer nem as catacumbas, nem o cemitério… mas, certamente, estará no meu roteiro e no do Guilherme quando voltarmos a Paris! 🙂 Em se tratando de mortos, estivemos no Pantheon (já foram?), e lá visitamos a cripta onde estão sepultados Victor Hugo, Èmile Zola, Voltaire, Rousseau, Alexandre Dumas… etc… Fiquei bem emocionada! Na tumba branca de Victor Hugo tem uma rosa vermelha, sozinha. Achei lindo. 🙂

    Agora, o Jardim de Luxemburgo conheci! E tenho que confessar que vendo sua foto tomei um susto pela quantidade de gente… (alergia!)..rs. Quando fui estava bemmmmmmm mais vazio (certamente pelo frio). Cheio assim não me apetece! Mas, é lindíssimo.

    beijos! 🙂

    • Kél,
      Acho que vcs iam gostar do roteiro, sim. Vc ia gostar de conhecer o cemitério de Montparnasse. Além da Simone e do Sartre, tem o Julio Cortazar, o Baudelaire e outros escritores. O Jardim de Luxemburgo tava cheio daquele jeito mesmo, mas tinham espaços vazios. As pessoas se concentram mais onde bate mais sol e a foto mostra uma dessas concentrações de gente. Eu também não sou chegada a grandes multidões, mas não era o caso la viu? Tava cheio, mas super tranquilo, não tava barulhento, sabe? Tinha gente conversando, gente lendo, gente jogando xadez, pessoas dormindo e tomando sol. As crianças se concentram nos parquinhos (ai é bem barulhento, claro) as crianças pequenas e bebês têm um jardim so para eles (fofo!!!)
      Agora, parece que no verão fica muito mais cheio, como todos os espaços verdes por aqui. Pra vcs dois, o ideal é vir pra ca quando ta mais frio, fora da temporada de férias.
      Beijinhos

  2. Oi, Tais: sou leitora do que escreve o seu pai, lá no Boteco Escola – e vim aqui pela sugestão oferecida; achei bem interessante as suas observações sobre a vida em Paris. Ficarei também, sempre que possível sua leitora; abraço.

    Doralice Araújo, professora de Redação, em Curitiba

  3. Olá meus queridos, Taís e Arthur. Ao menos estou matando a saudade através das fotos… Belas, por sinal.
    Hoje é a segunda vez que entro no blog, desde a criação do mesmo. Já li quase tudo, e estou encantada com a sua forma de escrever… Confesso que estou amando conhecer Paris através dos seus olhos, Taís. Grata por esse “compartilhar”.
    Com certeza eu teria adorado conhecer as catacumbas, mas, me emocionou ver a foto da tumba do Sartre e da Simone, principalmente dela, de quem fui e sou super fã.
    Voltarei sempre, para acompanhar as novidades, saber dos passeios, da vida que vocês estão levando em Paris (ai qui inveja!!!).
    Beijos meus amores. Sucesso e APROVEITEM a oportunidade.
    Inté mais ver!

    • Oi Edna!
      Que bom saber que vc também tem passado por aqui! Qualquer dia, quem sabe, vc conhece não so Paris mas outros lugares interessantes da Europa? Enquanto isso, vamos colocando as fotos.
      Saudades e beijos,
      dos dois:)

  4. Pingback: Os amigos do Arthur « Taís em Paris

  5. jarbas

    Oi filha,

    Eu achava que os subterrâneos de Paris fossem mais uma invenção de Hugo em os Miseráveis. Muitos dos personagens do romance vivem nas profundezas da cidade, um ambiente expressivo para, sem palavras, mostrar os deserdados da sorte. Agora aprendo com você que os subterrâneos não são ficção. Pois é… Blog também é cultura. Mas não precisa colocar a atração no roteiro de andanças que vocês deverão fazer para nossa (minha e de sua mãe) visita a Paris. Beijão, Jarbas.

  6. Ah, que bonito! E viva o sol para fazer fotos bonitas!!! He.

  7. Tati

    Querida,
    Adorei o post e mais ainda saber que você está se divertindo cada dia mais por aí! Não se iniba com o francês, mais dia menos dia vai perceber que fala e très bien!
    beijos, saudades enormes!
    Tati

  8. Taís, somente hoje encontrei seu blog. Adorei! Seu jeito informal de escrever é super simpático, e agrada logo de cara. Além disso as informações são bem descritas e tudo é bem relatado. Vc transmite simpatia em cada linha. Parabéns mesmo. Já visitamos Paris algumas vezes e tb temos uma pg sobre a cidade em nosso site, mas vocé é realmente fora de série. Viramos seus fãs!!

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