Arquivo do mês: maio 2009

A beleza descansa no Loire

Descobri que o pais dos feriados não é o Brasil, minha gente, é a França. Pelo menos essa é a minha impressão até agora. So no mês de maio tivemos três, que emendaram com o fim de semana. Semana passada, aproveitando um desses feriados, viajamos para o Vale do Loire. Saímos na quinta de manhã e voltamos domingo, tarde da noite. Por isso meu sumiço, para quem perguntou, viu?

Com minha mania de exagerar, ia dizer que o Vale do Loire é lindo de morrer! Mas não é isso. Realmente é lindo, mas tão intensamente lindo que faz a gente se enganar e ser um tantinho impreciso. O vale e o rio, margeado por castelos e cidades medievais, são de uma beleza inimaginável, mas não acho que se trate daquela beleza exuberante, de tirar o fôlego. Também não é menos que isso. No fim da viagem eu ouvi uma turista francesa dizendo que no vale do Loire tudo é infinitamente belo e repousante. Eh isso, repousante é a palavra. De uma beleza intensa, mas repousante.

Porque, imagina, você vê um castelo que é uma verdadeira obra de arte, como o Chambord, o primeiro da nossa viagem. Naturalmente, sente aquele deslumbramento. Mas ai você repara que o castelo combina com o bosque imenso que o cerca e que esta em harmonia com o rio que passa perto dele. Tudo, absolutamente tudo é bonito e harmonioso.

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Ai ja viu, a sua visão fica acostumada com aquela beleza. O Chenonceau, um castelo menos chamativo que Chambord, é um exemplo dessa harmonia. O rio atravessa o castelo, ou, dependendo do ponto de vista, o castelo atravessa o rio, de margem a margem, bosque a bosque, com seus jardins planejados.

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Por falar em jardins, nada mais belo que o Villandry, o castelo com jardins tematicos e uma horta milimetricamente desenhada, com suas cores que combinam entre si e, de cima, formam um todo admiravel.

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No fim, nos conhecemos seis castelos (Chambord, Chenonceau, Blois, Saumur, Brézé, Villandry) e três cidades (Blois, Saumur, Tours) no Loire. Cheguei de viagem cheia de coisas pra contar…Sim, porque cada castelo tem uma historia, tem A Historia, porque neles viveram reis, rainhas e nobres franceses e outras historias miúdas,  mas talvez mais interessantes, de amor, vingança, complô, assassinato… Prometo que conto pra vocês nos próximos posts. Recomendo a todo mundo que vier pra França, principalmente nos dias ensolarados: Passem pelo menos uns dois dias no Vale do Loire. Eu, que acabei de voltar de viagem, ja estou com saudades.

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Colocamos todas as fotos dessa viagem no nosso album.

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La Nuit des Musées

Olha, eu tenho muitas saudades do Brasil. Na verdade não é tanto do Brasil, é um pouco da comida, do sol, da lingua, confesso. Mas eu tenho saudade de verdade so das pessoas  –  a familia e os amigos. Se não fosse pelas pessoas, eu poderia trocar de pais facilmente. Daria sim para viver aqui nessa cidade. Calma, isso aqui também não é perfeito. Tem pobreza, mendigo, violência (bem menos, é verdade), sujeira e lugares feios. Tem sim, viu? Não adianta se iludir. Mas tem horas que eu fico muito empolgada com essa cidade, como no sabado passado.

O fim de semana ja foi cheio de atividades, como eu contei aqui, e no sabado à noite tivemos a quinta edição do evento Noite dos Museus. Acontece em toda a Europa, mas é preciso dizer que Paris é uma cidade particularmente especial quando o assunto é museu. Nessa noite, todos os museus ficaram abertos até a madrugada, com entrada gratuita e uma programação especial.

O unico problema de estar num evento desses em Paris é a quantidade de escolhas. São muitas, da vontade de ver tudo, mas, claro, é humanamente impossivel. Não tem jeito, você tem que ir num so museu e torcer para que tenha feito a escolha certa. Então vamos la, o que você escolheria?

Ver as esculturas de Rodin especialmente iluminadas para a noite? Visitar Orsay? Picasso? Musée Carnavalet com concerto de musica e dança? Orangerie com programação especial de musica? E assim vamos, com eventos e mais eventos, nessa cidade apinhada de museus. Como se os acervos permanentes ja não fossem suficientes.

Enfim, nos escolhemos ir pela segunda vez no bom e velho Louvre, porque nos estamos empenhados na missão de conhecer o Louvre de cabo a rabo antes de partir. Não sei se vai dar, mas a gente tenta. Pelo jeito, a escolha foi otima. Fiquei sabendo que muitos museus lotaram, com filas que dobravam o quarteirão. No Louvre, imenso, mesmo que tenha uma multidão, ela sempre se dispersa. E, de fato, quando chegamos, não pegamos fila alguma e conseguimos ver tudo com tranquilidade.

Dessa vez, escolhemos a coleção de arte francesa.

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Vimos umas  salas, mas tivemos que interromper a visita, porque as outras salas da coleção estavam fechadas.

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Passamos para o começo da pintura italiana: Botticelli, Da Vinci, Raphael…

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O engraçado é que a visita é tranquila até chegar perto da sala 6, onde fica a Monalisa. Ai a gente começa a ver aqueles grupos imensos se dirigindo ao lugar onde fica o famoso retrato de Leonardo.

Nos preferimos nem ver a Monalisa nessa dia e decidimos que no proximo domingo gratuito a gente acorda cedo, vê primeiro a Monalisa e, depois que o museu começar a lotar, segue para as outras obras, que também são otimas, embora não tão prestigiadas pelos visitantes.

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Fête de la Cité

Esse fim de semana foi de festa aqui na Cité, como acontece todos os anos. Eu acho que só contei por cima o que é a Cité, onde a gente mora. Então vamos la: a Cité Universitaire Internationale de Paris é um lugar interessantíssimo localizado no 14° arrondissement, uma das regiões bonitas da cidade, não muito perto do centro, na rive gauche.

A Cité surgiu na década de 1920, como alojamento para estudantes da Université de Paris. Com o tempo, decidiu-se pela construção de casas representativas de vários países para acolher os estudantes estrangeiros. A idéia é (e continua sendo) a mistura de povos e culturas num ambiente estudantil, propicio para essas trocas. Hoje, ela tem cerca de 5600 residentes em suas 40 casas que recebem estudantes, pesquisadores e professores de todo o mundo.

Não tem nada a ver com a idéia que a gente tem de cidade universitária e não é só um conjunto de alojamentos. São prédios organizados de cada pais, cada um com uma arquitetura diferente e com uma programação cultural própria. Temos também a Maison Internationale, a casa central da Cité, onde ficam o restaurante central, a biblioteca, a piscina e mais muitas outras coisas (até hoje eu não conheci tudo la dentro).

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Aqui, a Bélgica tem o tamanho dos Estados Unidos, a Argentina é vizinha do Canada e o Brasil fica do lado da Noruega, pertinho da India e da Suíça. A maioria dos residentes de cada casa nacional é do pais, mas existe um intercâmbio de moradores. Aqui na Maison du Brésil, por exemplo, 30% dos meus vizinhos são não brasileiros. Tem francês, sueco, paquistanês. ouve-se mais o português, claro, mais a língua oficial na Cité, quando as nacionalidades se misturam, é o francês.

Como a Cité é essa Babel que deu certo – porque todo mundo se entende no francês ou, em ultimo caso no inglês – a festa é também multicultural. No fim de semana, tivemos vários eventos simultâneos em casas diferentes e shows variados na pelouse (gramado) em frente à Maison Internationale. O tempo foi cruel com a festa a céu aberto, ficou frio e chuvoso a maior parte do tempo, mas deu pra aproveitar muito.

Sabado de manhã, fomos aproveitar o café da manhã a 1 euro e 50centavos da Maison des Industries Agricoles et Alimentaires. Nos e mais outros bolsistas brasileiros, que foram tirar a barriga da miséria enquanto a bolsa da CNPq não vem, já que ela sempre atrasa 3 meses.

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A gente comeu tanto, que não sobrou lugar para as especialidades vendidas na casa da Argentina e na casa do Líbano, destinos que eu já tinha marcado na agenda. Mas pra mim, o ponto alto da festa foi a Bourse aux Livres, feita pela biblioteca central. Tinham me falado que a biblioteca ia dar 10 mil livros, mas eu não acreditei que a gente podia chegar la e pegar quantos quisesse. Eu fiquei na fila para esperar as portas abrirem, fui uma das primeiras e chegar e logo depois vi um monte de gente chegando com caixas, sacos e até carrinhos. Realmente você podia pegar quantos livros quisessem, entre exemplares diversos de literatura francesa e mundial. Eu e o Arthur não levamos caixas e selecionamos bem o que queríamos levar.

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No fim, levamos 20 livros, os dois juntos. Victor Hugo, La Fontaine, Balzac, um pouco de historia da arte, dois da Amélie Nothomb (minha autora contemporânea preferida, li dois livros dela aqui na França e me apaixonei), entre outros. Vi la um livro da Amélie que eu tinha comprado dois dias antes.

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Realmente não sabia que essa doação da biblioteca era tão boa. Tudo bem que aqui em Paris você consegue edições ótimas de literatura francesa a preços baixíssimos nas livrarias, porque aqui existe essa forte tradição de venda de livros usados. Ainda tenho que escrever um post sobre o assunto, Paris é realmente o paraíso de quem gosta de literatura. Semana passada eu encontrei numa livraria do Quartier Latin um livro capa dura super bonito de Os Miseráveis por 50 centavos de euro (mas não comprei porque o Arthur já tava perguntando como é que eu ia levar para o Brasil os livros que eu já comprei).

A festa continuou noite adentro, mas a gente saiu antes, porque não queríamos perder a Noite dos Museus, que acontece em varias cidades européias. Aqui em Paris, todos os museus abriram as portas gratuitamente para o publico à noite e de madrugada e muitos ofereceram ainda uma programação especial. Fomos ao Louvre, mas isso também é assunto para outro post.

Hoje, domingo à noite, a festa ja acabou. Na hora do almoço, fomos primeiro à Casa da Índia, porque o Arthur adora a comida indiana.

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Depois voltamos, porque era dia de festa na casa brasileira. Dia de comer feijoada, pão de queijo, docinhos de festa e tomar guarana. Dia de ver capoeira, roda de samba e ouvir musica boa e ruim, mas tudo do Brasil. Do melhor samba de raiz ao funk carioca mais irritante. Mas não importa, o legal foi a animação. Realmente, a alegria brasileira é especial. Fazemos sempre a festa mais animada, os estrangeiros sempre se impressionam.

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Não deu tempo de ir nas outras casas, mas não deu pra deixar de reparar nesse povo ai da imagem abaixo. Não sei de que pais eram, mas achei a dança, a musica e a maquiagem tão curiosas que tirei algumas fotos. Eles passaram bem do lado da casa brasileira na hora da capoeira, cujo batuque ja começava a se misturar à musica indiana, da casa vizinha. Uma salada que é a cara da Cité.

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C’est bon la gourmandise!

Gourmand – aquele que come (geralmente muito e bem) por prazer.

Gourmet – aquele que sabe apreciar a comida refinada e a bebida de melhor qualidade.

Acho que até levaria jeito para gourmet mas meu bolso não permite tal refinamento. Agora, gourmande (com “e” no final para as meninas) eu sou com certeza. Sexta passada foi feriado aqui na França, pra comemorar o dia da vitoria na Segunda Guerra. A gente aproveitou pra sair e, para nossos bolsinhos, acabamos gastando demais na sexta e no sábado. Então, no domingo, o jeito foi fazer a comida em casa. Gastando pouco dinheiro, com a ajuda do Franprix e de alguns produtos Leader Price (boas dicas pra quem quer gastar pouco aqui), deu pra fazer um almocinho básico e uma surpresinha:

1 – gauffres quentes com Nutella

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2 – sorvete de crème bruléee

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Et voilà! Muitas calorias, mas uma sobremesa pra gourmand nenhum botar defeito!

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Greves universitárias

O Arthur me mostrou hoje essa tirinha do PHD Comics, uma série de tirinhas cômicas sobre a vida dos pesquisadores que volta e meia arranca gargalhadas do menino. Essa de hoje me fez lembrar da greve francesa das universidades.

O personagem é novo e sai de cena pra sempre em uma só tirinha. “Querido Gerard, sentimos muito em informá-lo que, devido à crise econômica, a verba para todos os personagens de Humanidades foi cortada” “Por favor, deixe a tirinha de uma vez ou mude para uma área mais útil”‘. Achei a crítica genial. Quem faz pesquisa na área de humanas sabe o que é trabalhar sem bolsa, quando as agências de fomento têm um pensamento utilitarista.

Os professores, pesquisadores e alunos de grande parte das universidades francesas, em greve por período indeterminado, combatem esse pensamento utilitarista, que parece uma tendência mundial. Na semana passada assisti  a uma mesa redonda aqui mesmo na Maison du Brésil, sobre a lei de reforma universitária, com um sociólogo e professores, pesquisadores e alunos líderes de movimentos atuantes nessa greve. Embora as reivindicações sejam distintas de país para país, por causa de realidades muito diferentes, lembrei bastante das greves que presenciei quando estudava na USP.

Educação no Brasil e na França, quase nada em comum. Mas os princípios gerais são exatamente os mesmos no mundo inteiro: a luta pela educação pública, pelos valores da democracia e do humanismo, contra as reformas que beneficiam o mercado, acima de tudo. Aqui na França, quando falam no risco de “privatização das universidades” os debatedores se referem a algo mais complexo que o pagamento de mensalidades ou a expansão de uma rede privada de educação. Falam, na verdade, da privatização dos interesses públicos, do lobby e da ingerência das grandes empresas nos assuntos de educação e pesquisa.

O Sarkozy acusa os pesquisadores de não trabalharem, porque eles dedicam pouco tempo a aulas e muitas horas à pesquisa. Ele quer prova de produtividade, resultado, um discurso que convence muita gente. Quem pesquisa sabe que não é bem assim, que número de papers publicados pode não significar muita coisa. Mas vai explicar isso. Sabe aquela coisa que a gente fala muito no Brasil de que no país a universidade está muito distante da população geral? Aqui, guardadas as devidas proporções, acontece o mesmo. O cidadão comum também não entende as reivindicações dos grevistas.

As reformas, que vão em direção dos interesses do mercado (ex: financiamento com dinheiro público de pesquisas úteis às indústrias, desvio do dinheiro das áreas de humanas e ciências puras para áreas como informática, matemática aplicada, administração) já foram feitas na Inglaterra, na Itália e em vários outros cantos do mundo. Nos outros países europeus, também houve resistência. Na França, a briga assume uma proporçào maior pelo tamanho da greve, num país de forte tradição republicana e humanista. Fala-se na França como o último bastião da democracia e dos valores acadêmicos ou, pelo contrário, no país mais atrasado a fazer as reformas liberais na educação e nos outros setores estratégicos. Depende da opinião política de quem fala. Eu gosto mais da primeira visão. E fico triste de pensar que um país com uma forte tradição de estudos nas áreas de sociologia, história, filosofia e outras entre na onda da “modernização” e da “eficiência”.

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Nossas urgências

Ainda não vai dar pra escrever um post feliz. Olha só o nosso fim de semana: sexta de manhã, Dia do Trabalho (dia de não trabalhar e de tomar as ruas no país da greve), eu acordo e levo um susto. Amanheci ensopada de sangue, foi realmente assustador, deu pra notar nos lençóis tingidos de vermelho vivo e nos olhos super arregalados do Arthur que, tadinho, tinha acabado de acordar. Até tentei levantar para ir ao banheiro, mas ai saíram vários coágulos (desculpem se a descrição ficou meio nojenta, mas foi tão impressionante que me dá vontade de contar os detalhes), e eu quase desmaiei e tive que voltar para a cama. O Arthur chamou uma ambulância e eu esperei pelo atendimento calmamente porque sabia que ia ser socorrida em breve e porque não sentia muita dor. No fim tudo correu bem comigo, mas aconteceram algumas bizarrices que me deixaram com muita raiva nessa semana.

Começou com a vinda da ambulância. Os dois funcionários que fizeram os primeiros socorros foram gentis, mediram pressão, temperatura, viram que eu estava sangrando muito e me colocaram numa cadeira de rodas, antes de me passar para a maca, que ficou esperando no térreo. Eu já estava na cadeira, pronta para ir, e eles me pedem minha Carte Vitale, o documento de quem tem seguridade social aqui na França. A gente não tem o documento, mas um seguro de saúde que cobre urgências. Então, eles disseram que teríamos que pagar pela ambulância e teríamos um recibo, para tentar o ressarcimento com nosso seguro. OK, normal, vamos acertar isso quando chegar ao hospital, então.

– Não, desculpe senhor, nosso atendimento é independente do hospital. Tem que pagar direto para a gente. São 130 euros e 11 centavos.

– Tá, eu tenho carte bleue

– Não, não serve cartão, tem que ser dinheiro ou cheque. .. (o cara estava visivelmente incomodado com a situação de ter que cobrar antes de ir para o hospital, mas ele ligou para o chefe dele e parece que esse era o procedimento)… Olha…se o senhor não tiver o dinheiro em casa, a gente pode passar num banco antes de chegar ao hospital (ANTES de chegar ao hospital??? Eu tô entendendo direito ou a hemorragia afetou meus neurônios? Não, era isso mesmo)

O Arthur começou a contar o dinheiro da carteira dele e eu, me arrastando da cadeira para a cama, pedi para puxar a minha carteira e achei 130 euros e… cinco, dez e…voilà 11 centavos…agora podemos ir?

Partimos e, no caminho, um dos funcionários pediu desculpas, dizendo que o dinheiro não ia para o bolso deles não, era para o patrão e tal…enfim, até ele percebeu que o negócio de cobrar antes foi assim, vamos dizer, um tantinho desumano, né?

Mas tudo bem, chegamos ao hospital, fui muito bem tratada, esperaram para ver se eu ainda ia sangrar mais um pouco e acabei fazendo uma cirurgia de aspiração. Passei o dia inteiro no hospital, tomando soro e remédios, mas graças a Deus, não precisei de transfusão. E no fim, achei melhor assim porque não tive que tomar o Cytotec receitado um dia antes pela médica, foi um aborto natural. Mas as bizarrices continuaram. Nosso seguro, o tal de Assist-Card, disse que não ia pagar nada porque eles não cobrem gravidez, nem aborto, nem nenhuma complicação da gravidez.  Mas era uma emergência, se eu ficasse em casa eu poderia morrer, viu? Desculpe, senhora, mas está no contrato… blablabla… Escuta, da próxima vez você pode ligar para o meu marido, que tá la embaixo tentando falar com vocês…não é por nada não, é só que eu estou aqui deitada numa maca a caminho da cirurgia e essa conversa tá me estressando…

No fim, os atendentes do seguro ligaram varias vezes para explicar que eles não cobrem mesmo e blablabla…o Arthur avisou que ia tentar processa-los no Brasil…Mas o senhor assinou um contrato…Mas ele não está de acordo com as leis brasileiras, vou processa-los mesmo assim…Depois de algumas horas liga outro atendente para falar comigo, explicando que realmente o plano não cobre esse tipo de urgência, mas que eles abririam uma exceção e que poderiam pagar 300 euros (detalhe, a conta vai sair uns 2000 euros). A gente continuou batendo o pé, dizendo que não concordava com a atitude deles.

Depois dessa experiência desagradável, aprendemos algumas coisas sobre o sistema de saúde francês que são muito úteis para quem esta vindo para morara aqui por um tempo. A primeira delas: esses seguros internacionais que dizem cobrir urgências não funcionam. E não é só o nosso, uma menina que mora aqui na Maison du Brésil teve que ser levada para o hospital por causa de uma dor aguda, pedra nos rins, coisa que ela nunca tinha tido antes. O seguro dela disse também que não vai pagar nada, porque não cobre doenças pré-existentes, mesmo que o paciente não tenha conhecimento da doença. Fomos olhar no nosso contrato e é a mesma coisa; não cobrem doença pré-existente, qualquer coisa relacionada com Aids, gravidez, aborto… Resumindo, eles só disponibilizam um clinico geral pra receitar remedinhos para a gripe e cobrem acidentes. Qualquer emergência decorrente de qualquer doença não é coberta. E aqui na Maison, pelo menos, praticamente todo mundo faz esse tipo de plano antes de vir, até por indicação das instituições do governo brasileiro que dão as bolsas.

Hoje conversamos com a assistente social do hospital e ela disse que o ideal na França e ter a Carte Vitale e um seguro complementar francês quando você está no pais, trabalhando ou estudando, tudo certinho, legalizado. Senão, se depender desses seguros internacionais, você acaba descoberto. A gente teve que pagar 700 euros por esse seguro, jogamos dinheiro no lixo. E, pior, descobrimos que exatamente com esse dinheiro dava para fazer a Carte Vitale e um seguro complementar por um ano aqui na França, que cobriria outras coisas além de todo tipo de urgência. Enfim, um estresse, uma raiva dessas companhias de seguro que te dão zero de segurança. Agora vou tentar espalhar o alerta para o maior número de pessoas possivel, para que mais nenhum estudante ou pesquisador brasileiro caia nessa armadilha.

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