O “interessante” hospital St-Louis

Domingo, depois de passar uma tarde na Torre Eiffel (foi a primeira vez que subimos la), decidimos fazer um passeio a pé indicado pelo nosso guia de viagem. Queria conhecer o Canal St-Martin, então fizemos exatamente o caminho indicado pelo guia.

Paramos na estação Stalingrad do metrô e vimos a primeira atração indicada, a Barrière de la Villette, um guichê de pedágio da Paris do século 18, muito bem conservado.

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Logo em frente, tem uma praça, “bela” segundo o guia, com fontes e terraços da década de 1980. Diferente da foto do guia, a fonte estava seca, e o ambiente não era dos mais charmosos. A gente ja tinha visto que estávamos no 19º arrondissement, uma das áreas ditas perigosas de Paris, mas como era mais uma das noites ensolaradas parisienses, continuamos e decidimos voltar assim que começasse a escurecer.

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Primeira imagem estranha do dia. Ta vendo na foto acima, as colunas nas laterais? Na direita, era um barzinho animado cheio de gente. Mas à esquerda era um cantinho escondido com sofás, colchões velhos e papelões, que à primeira vista parecia um alojamento provisório de mendigos. Reparando bem – e qualquer um da margem direita conseguia reparar – acontecia algo muito estranho la dentro. Eram uns cinco caras mal-encarados e uma ou outra mocinha que entrava e saia do pequeno “esconderijo”. A gente percebeu que la dentro tinham algumas bolsas, sacolas; os homens experimentavam calças, camisas. Uma hora um deles olhou o conteúdo de uma bolsa feminina e jogou a bolsa de lado. Pareciam coisas roubadas. Estranhei, é uma cena que eu nunca tinha visto na Paris que conhecia até agora.

Apesar do grupinho suspeito, isolado nesse cantinho, as pessoas passeavam e faziam pique-nique tranquilamente às margens do canal. Logo em frente tem uma rede de cinemas, que também estava cheia. As salas ficam dos dois lados do canal e, pra fazer charminho, tem um barco que leva os clientes de um lado para o outro.

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Depois de errar um pouquinho a direção, voltamos para o caminho indicado pelo guia…”Volte para o Quai de Jemmapes, onde, no nº 134, situa-se um dos poucos prédios industriais de tijolo e ferro que ocupavam toda a margem do canal do século 19…

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…Mais à frente, esta um prédio de apartamentos  em Art Déco, com azulejos e balcões de ferro batido. No térreo, encontra-se um tipico café proletario dos anos 1930…

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…nesse ponto o canal faz uma curva graciosa…

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…para seu terceiro dique…” Ops, nesse ponto tivemos que interromper o passeio. Para meu susto, eu tive, de repente, uma bela hemorragia, que, em poucos minutos, ja manchava minha calça e qualquer coisa em que eu encostasse, o sangue ja chegava a ensopar minhas meias e, mesmo que eu não tenha desmaiado nem passado mal, comecei a me sentir fraca, talvez pelo susto. A sorte é que, perguntando na rua, descobrimos que estávamos pertinho de um hospital, o St-Louis. Fomos correndo para la e, de la me mandaram de ambulância para o hospital onde eu fui tratada pela primeira vez. Felizmente, a ultrassonografia não apontou nenhum problema. A médica disse que isso pode acontecer um mês depois do aborto natural, que chega a ser “quase normal”. Bem que podiam ter me avisado antes, né? Eu não teria passado esse sufoco no meio da rua.

No fim, sangrei bastante até terça-feira. Hoje, os remédios para parar a hemorragia começaram a funcionar. Ja estou bem de novo, so preciso tomar ferro por um mês e fazer exame para ver se não estou com anemia (mas acho que não). Ela falou que eu não devo ter mais nada na próxima menstruação. De qualquer jeito, vou ficar mais atenta. Quem me conhece sabe como eu sou zicada e como acabo “frequentando” os hospitais.

Quando eu tava mais calma, deitada numa cama do hospital, esperando uma ambulância, o Arthur abre o guia, para ver qual era  a próxima atração, que a gente teria perdido. Para a nossa surpresa: “Vire à esquerda na rua Bichat, que vai até o interessante Hôpital St-Louis, do século 17. Entre pelo velho portão principal, com pórtico alto e arco de pedra,e chegue ao patio e jardim O hospital foi fundado em 1607 por Henrique IV, primeiro rei da dinastia dos Bourbons, para cuidar das vitimas da peste.” Dai, o Arthur não aguentou a piada pronta: “Oh Tatinha, você tinha que entrar no hospital né? Não era pra entrar, era so pra passar por perto, você não entendeu. Eu não passo com você perto daquele hospital do Hôtel Dieu de jeito nenhum, viu? Se nesse hospital do século 17 você ja fez isso, imagina se a gente passa na frente desse outro, do século 12”

Quando sai do St-Louis de ambulância, da janela de trás do carro, olhei a placa que confirmava: “1607 -2007: 400 anos de medicina”. E segui olhando Paris à noite da perspectiva do doente levado na ambulância. Interessante, detalhes de monumentos e edifícios que a gente vê em ângulos inusitados, de baixo pra cima, so o que esta no alto. Da outra vez que usei os préstimos (caros, por sinal) de uma ambulância parisiense era um dia ensolarado. Ai meu Deus, to me acostumando com as ambulâncias daqui. Mas acho que ja deu, né? Chega de hospital, espero.

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10 Comentários

Arquivado em cotidiano, fim de semana, França, Paris, passeio

10 Respostas para “O “interessante” hospital St-Louis

  1. tadinha, taise!!! q sufoco!!! espero q vc estaje bem melhor agora. se cuida por aí.

    bjocas

  2. Nara

    Tais, voce ja conhece quase todos os medicos da Unimed de Sao Paulo. E grande parte deles te conhece tambem. Agora a senhora ta se familiarizando com as ambulancias parisienses! Acho que de “Paris a noite da perspectiva do doente” ja ta bom demais ne! E bota aspas ai nesse “interessante”! Beijo Nara

  3. Tati

    Que texto tão leve e encantador para um susto tão grande!
    Só vc mesmo Taís… Em sete meses, já estará conhecendo toda a rede de saúde parisiente!
    Bisoux e grandes melhoras,
    Tati

  4. Edna Vezzoni

    É! Concordo com o Arthur… Passem bem longe de hospitais, os mais antigos, e os mais modernos também! Por favor. Nem pense em entrar em outro hospital, ou pegar carona na ambulância… De preferência, aos taxis e metros. Ou bicicleta.
    Só você mesma Tata, para dar de forma tão branda, uma notícia que nos deixa com o coração na boca. Imagino o sufoco. Porém passou, e, por gentileza menina, trate de nos dar menos sustos.
    Fique bem. Se cuide.
    Beijos e abraços saudosos, aos dois.

  5. jarbas

    Oi filha,

    Sua experiência pode inaugurar um novo modo de fazer turismo. Ou pode ser aproveitada para título de um conto, “A Turista da Ambulância”. No futuro, o Michelin precisa incluir a atração para viajantes que que queiram experimentar aventuras de atendimento médico em Paris by night. Tem muita gente que vai se interessar. E você, por favor, não repita o feito. Volte a passear de modo convencional. Beijão, Jarbas.

  6. Táis.
    Publico esta semana o e-mail que me enviou.
    Obrigada

  7. Olá Taís:
    Acabo de conhecer o seu blog através de um comentário que você deixou no conexão paris.
    Adorei!!!
    Sou uma das muitas apaixonadas por Paris. Morei aí por um ano há séculos (1976 -77) quando tinha 18 anos e passei alguns apertos.
    Seus textos me fazem recordar muitas coisa.
    Obrigada!!!!
    Vou ficar te acompanhando.
    bjs

    • Oi Tania,
      Obrigada pelo elogio ao bloguinho! Nossa, vc morou aqui na década de 70, deve ter sido otimo! Tenho muita curiosidade de saber como era a vida dos brasileiros aqui nessa época. Se puder, conta um pouquinho.
      Beijos!

  8. Adriana

    Tais,
    cheguei aqui através do Conexão.
    Puxa vida!
    Espero que você já esteja recuperada de tudo.
    Um abraço carinhoso,
    Adriana/BH

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