Meu vício

Foi aqui em Paris que descobri minha escritora contemporânea preferida. Já faz um tempo, na aula de francês, lemos uma entrevista dela e, em seguida, um trecho do livro Métaphysique des tubes. Fiquei a apaixonada. Não só pelo inusitado do tema – a “biografia” da autora de zero a três anos de idade – mas pela maneira de escrever. Como ela escreve bem! E como sabe usar na medida certa a ironia, o sarcasmo, com um toque muito particular de doçura.

A escritora é a Amélie Nothomb, uma belga que se diz japonesa de coração. Filha de diplomata, ela viveu em vários lugares do mundo, mas passou a primeira infância no Japão, terra que a fascina até hoje. Recomendo Metafisica dos Tubos para todo mundo, já que o livro foi traduzido para o português e publicado no Brasil, pela editora Record. Para quem sabe francês, dá pra ler no original porque a escrita é leve, sem muitas palavras complicadas.

Engraçado que, embora ela seja hiper pop aqui na França e tenha livros publicados no Brasil, eu nunca tinha ouvido falar nela. Tem quem a ame, mas também tem quem odeie, como acaba acontecendo com todo escritor que fica famosinho.

Ela tem 17 livros publicados e lança um por ano. Até agora eu li seis. Fiquei viciada mesmo. Os outros autores eu leio devagar, um pouquinho por dia, os livros da Amélie eu devoro em dois dias. Eu queria comprar mais, mas o Arthur disse CALMA!!! Humf! Mas concordei com ele, eu já estou com uma montanha de livros, preciso ler os outros autores e, o mais importante: Como é que eu vou fazer pra levar isso tudo para o Brasil?

Dos livros que li, meus preferidos são Métaphysique des tubes e Stupeur e Tremblements (Medo e Submissão, no Brasil, também publicado pela Record). Este também é autobiográfico e conta a saga surreal e kafkiana que foi o ano em que ela trabalhou para uma grande empresa japonesa, com seus valores orientais, seus incompreensíveis códigos de conduta e humilhações que teriam deixado qualquer outra pessoa louca.

stupeurettremblements

Mas, pelos outros livros autobiográficos da Amélie (desses eu li também Biographie de la faim e Le Sabotage Amoureux), dá pra ver que já faltava um parafuso na cabeça da mocinha, que é pinel no melhor sentido da palavra, desses louquinhos geniais, encantadora!

Dos livros de ficção, li seu primeiro (Hygiene de l’Assassin) e o Antéchrista. São ficção os dois, mas, depois de ler as obras autobiográficas, a gente começa a identificar referências e pontos em comum entre os personagens e a autora.

Em Métaphysique des tubes ela conta uma parte curiosa de sua vida. Os médicos japoneses não identificaram o tipo de doença que ela teria, mas até os dois anos de idade, ela não falava, não emitia nenhum som ou sinal de sentimento, praticamente não se mexia, não fazia absolutamente nada, até que um dia despertou, também sem nenhuma explicação médica. A autora interpreta e explica esse fenômeno de um jeito muito engraçado; à sua maneira original, ela explica tudo o que aconteceu com ela. Então, até os dois anos, ela se considera o tubo do título, a quem só competiam as tarefas de deglutição, digestão e excreção. Depois do misterioso despertar (ela tem uma explicação ao mesmo tempo metafisica e coerente para isso também), o tubo torna-se um bebê raivoso e insuportável, que só sabia gritar e chorar.

metaphysiquedestubes

O momento em que ela deixa esse estado de raiva e começa a virar uma criança agradável é um dos melhores do livro. Segundo ela, o milagre foi o chocolate branco e o santo a sua avó belga, que trouxe o presente mágico de sua terra natal. Deixo aqui um trecho dessa passagem, em francês (me desculpem), porque não tenho a versão traduzida e se eu mesma traduzir, devo estragar um pouco o texto:

La grand-mère m’avait rempli la bouche de sucre: soudain, l’animal furieux avait appris qu’il y avait une justification à tant d’ennui, que le corps et l’esprit servaient à exulter et qu’il ne fallait donc pas en vouloir ni à l’univers entier  ni à soi-même d’être là. Le plaisir profita de l’occasion pour nommer son instrument: il l’appela moi – et c’est un nom que j’ai conservé.

Il existe depuis très longtemps une immense secte d’imbéciles qui opposent sensualité et intelligence. C’est un cercle vicieux: ils se privent de volupté pour exalter leur capacités intellectuelles, ce qui a pour résultat de les appauvrir. Ils deviennent de plus en plus stupides, ce qui les conforte dans leur conviction d’être brillants – car on n’a rien inventé de mieux que la bêtise pour se croire intelligent.

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7 Comentários

Arquivado em livro, Paris

7 Respostas para “Meu vício

  1. vou comprar em francês aqui no brasil. será q encontro? preciso treinar esse maldito idioma… tô mega enferrujada.

    bjocas e saudades

  2. Keux

    Nossa, deve ser demais esses livros!
    Adorei a criatividade dos temas!
    Tb queroooo!

    Aliás, tem uma cartunista francesa que eu adoro: Margaux Motin.
    Recentemente, ela publicou um livro aí na França. Você pode ver qual é o valor ? Assim, te mando uns euros para você trazê-lo para mim! rs

    Veja o blog dela:http://margauxmotin.typepad.fr/

    bjsss!

    • Então Keux, achei três livros dela traduzidos e publicados no Brasil.
      Quanto à encomenda, sinto muito mas não vai dar. A gente ja percebeu que não vai dar nem pra levar os livros que a gente ja comprou. Vamos mandar por correio. Aqui so compensa comprar e mandar por correio os chamados livres d’occasion, os usados, esses sim a gente compra por 2 euros, ou as vezes, por alguns centavos. Dai compensa o custo do envio. Senão, é melhor comprar pela amazon mesmo, fica mais barato. Eu posso ver se encontro livros usados dessa cartunista, dai te falo, ta bom?
      Beijos

  3. Luciano

    Legal, obrigado pela dica.
    Quando eu deixar de ser preguiçoso e começar a aprender francês, vou ler.
    Achei bem interessante a idéia de escrever uma biografia da primeira infância.
    Bjs,

  4. Pingback: Agora, em português « Taís em Paris

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