Arquivo do dia: 21/06/2009

O castelo das mulheres

Junto com Chambord, Chenonceau é um dos castelos mais bonitos do Vale do Loire. Impressionante não só pela arquitetura, por seus jardins e bosques, mas por sua localização, atravessando o rio Cher, de margem a margem, e deixando um reflexo lindo na água.

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Uma fortaleza medieval da casa nobre de Marques ocupava o local onde fica o castelo, de 1243 a 1512. Em 1513, as terras foram vendidas para o nobre Thomas Bohier que, por influência de sua mulher Catherine Bohier, decidiu derrubar a construção medieval e construir um castelo renascentista no lugar. A única parte da antiga fortaleza conservada foi uma torre, mantida para servir de moradia para o guardião do castelo.

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Thomas e Catherine morreram alguns anos depois do término da imensa obra. O filho do casal teve o castelo e as terras confiscadas pelo rei Francisco I, pela falta de pagamento de dívidas com a coroa. Dizem que, na verdade, a propriedade foi confiscada em 1533 porque o rei estava de olho naquela maravilha tão bem localizada no Vale do Loire.

O poderoso Francisco I passou alguns dias no castelo, acompanhado da família, sua mulher, sua amante oficial e seu filho Henrique II e de amigos, como Catherine de Médice e Diana de Poitiers. Essa ultima tornou-se a famosa amante de Henrique II, desde os 12 anos de idade do príncipe. Alguns anos mais tarde, com 15 anos, ele se casa com Catherine de Médice, que tinha a mesma idade do príncipe, mas continuaria ligado a Diana até a morte, apesar da diferença de 19 anos entre os dois.

O romance de Henrique II e Diana de Poitiers é cheio de lendas, historias e boatos. Dizem que a aproximação de Diana do príncipe ainda adolescente foi idéia do rei, que queria que ela colocasse juízo na cabeça de seu filho. Fato é que, desde que se tornou rei, centralizando o poder, Henrique II sempre deixou muito claro o lugar especial de sua amada. Nunca nenhuma amante tinha tido tamanho poder sobre a monarquia francesa. Henrique II vestia-se sempre de preto e branco, as cores preferidas de sua amada, e escolheu para si o emblema da lua crescente, símbolo da deusa Diana. Existem varias obras de arte que representam a nobre vestida como sua homônima, a deusa da caça, como a tela abaixo, presente em um dos cômodos de Chenonceau:

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Em outras obras, Diana de Poitiers aparece nua, para ressaltar sua lendária beleza, como nessa tela da escola de Fontainebleau:

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O rei não mostrava sua adoração por Diana apenas nesses gestos simbólicos. Ele deu a ela jóias, recursos reais e, mais importante, o castelo de Chenonceau. Sob o comando de Diana, o castelo floresceu. Ela mandou construir o corredor do castelo que atravessa o rio e um jardim esplêndido.

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Ampliou a parte construída da propriedade, que administrava muito bem. Apesar da passagem dos anos, parece que Diana conseguia, milagrosamente, conservar sua beleza. Dizem que seu segredo era acordar cedo todos os dias e mergulhar na água fria que banhava o castelo. Dentro do castelo, podemos ver em praticamente todos os cômodos um simbolo real concebido por Henrique II que consistia no entrelaçamento das letras H, de sua inicial, e C, de sua mulher Catherine. As duas letras entrelaçadas acabam formando um D, de Diana.

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Em 1559, Henrique II é ferido seriamente no olho durante um torneio, o que leva a sua morte. A rainha viúva – dizem que por ciume ou talvez tentando mostrar quem realmente manda – retoma Chenonceau e algumas jóias que foram dadas a Diana. A famosa amante é expulsa do castelo encantado e transferida para um palacete menor e menos importante da região. Catherine – essa mulher brava que aparece no retrato abaixo – não mudou as construções de Diana, mas construiria outro jardim no já impressionante domínio de Chenonceau, para rivalizar com o lindo jardim da amante. Hoje, a propriedade tem dois jardins em estilos diferentes: o de Diana e o de Catherine.

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O castelo ficou nas mãos da família real e foi passado como herança para famílias nobres, parentes da realeza, até 1733, quando o duque de Bourbon vendeu Chenonceau para um burguês, o banqueiro Claude Dupin. A esposa de Claude, uma amante das artes, da ciência e da literatura, resolveu transformar o palácio renascentista em ponto de encontro de artistas e intelectuais. No local, ela adaptou laboratórios, salões e teatros por onde passaram intelectuais como Voltaire, Montesquieu, Rousseau e o biólogo Buffon.

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Durante a revolução, a ação de Madame Dupin foi essencial para salvar o castelo de revolucionários precipitados que queriam destruir tudo. Ela teve a simpatia dos líderes da revolução por ter abrigado filósofos de ideais revolucionários e conseguiu convencer os combatentes mais raivosos a manter o castelo, dizendo que ele era a única ponte entre os dois lados do rio. Ela teve que fazer alguns sacrifício pelo castelo. Assim, a propriedade abrigou revolucionários e suas armas e a capela foi transformada em deposito de madeira.

Seus esforços valeram a pena. O castelo foi poupado e, depois do curto período de lutas revolucionarias, o lugar voltou a ter a paz e a graça de antigamente. Foi nesse paraíso que Madame Dupin viveu até sua morte, aos 93 anos. A benfeitora do castelo esta la até hoje, seu tumulo fica no bosque do Chenonceau, hoje visitado por milhares de turistas.

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Chenonceau é conhecido como Château des Dames pela importância que as mulheres tiveram em sua construção e manutenção. Desde 1513, com o planejamento e primeiras construções de Katherine Briçonnet, passando pelo embelezamento da propriedade promovido pelas rivais Diane de Poitiers e Catherine de Médice, até a ação determinante de Madame Dupin, graças a quem o castelo passou incólume à sangrenta Revolução Francesa.

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