Arquivo do mês: agosto 2009

Nossa viagem pra terra da rainha

Os franceses chamam os ingleses de roast beef e os ingleses apelidaram os franceses de frogs. Os dois países viveram muitos anos de guerra em diferentes períodos, antes de se aliarem nas duas grandes guerras. Hoje, eles travam uma gueguerre (guerrinha, ou guerra de mentirinha). Então, por aqui dizem que os ingleses cozinham e comem mal e vivem num pais sem sol. Por la, finge-se desconfiar dos franceses, esse povo que come coisas esquisitas e não gosta de tomar banho. Na realidade, o que se vê é um grande intercâmbio entre os dois países, já que é cada vez mais fácil e barato atravessar o Canal da Mancha. Então, é comum vê-los passando férias no pais vizinho, alugando e comprando casas de campo e de praia e (o mais estranho) passeando de carro no outro pais. Isso eu acho particularmente perigoso, já que cada um dirige de um lado do veiculo.

Nas nossas férias aqui, decidimos ir para a terra da rainha; o Arthur queria muito conhecer a região. Eu conhecia um pouco da Inglaterra e servi de guia (um pouco perdida, é verdade) para o Arthur em Londres e nas cidades de Oxford e Bath. Chegando na capital inglesa, a impressão do Arthur não foi das melhores e, finalmente ele reconheceu: Eh, Paris é mais bonita mesmo!

Não teve como não comparar: em Londres as atrações pagas eram caríssimas, mas os museus eram de graça, em compensação… a comida não é tão cara e, pasmem, é boa sim! São cidades bem diferentes e, no fim, concluímos que Paris é mais agradável para morar, por causa das pessoas e do ambiente e Londres é mais interessante em alguns aspectos. Um deles: ha um Pub em cada esquina, sempre com ótimas cervejas e comida com “preços honestos”, como eles dizem. Percebendo isso, fizemos um tour dos Pubs: dois em Bath, dois em Oxford e outros tantos em Londres, entre eles os famosos Black Friar, Sherlock Holmes e Lamb and Flag.

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Aproveitamos o que a cidade tem de especial: assistimos a uma peça do Shakespeare no Globe e fomos a um musical bem britânico, o Billy Elliot. Eu levei o Arthur na Forbidden Planet, uma loja que é a perdição para os fãs de quadrinhos, RPG e afins. Passamos pelo Museu de Historia Natural, a National Gallery, a Tate Britain e a Tate Modern. E passeamos pelos belos parques da capital (esses, é preciso reconhecer, são mais belos que os da cidade-luz), em especial o St-James. Já conhecia o lugar, mas dessa vez, eu consegui ver a estrela do parque, o pelicano:

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Além dos outro animais que sempre estão por la:

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Ficamos oito dias em Londres. No ultimo dia tive que ficar no hotel porque peguei uma gripe brava e tive que ir ao médico e tomar antibióticos, pra variar. Acho que a mudança de clima não deve ter feito muito bem. Depois desse dia de descanso, partimos para Edimburgo, na Escócia, e eu percebi que fiz muito bem em começar a me tratar em Londres. Se na capital inglesa eu já estava achando que o vento incomodava, em Edimburgo tive que tirar minhas únicas três blusas de frio da mala mais um cachecol, modelito que tive que repetir nos três dias que ficamos la.

A Escócia é mesmo a terra do frio eterno, como disse a Cris, mas é realmente linda. Edimburgo estava lotada porque agosto é o mês dos festivais – de musica, literatura e outros, como o famoso Fringe, de teatro.

Assistimos a algumas apresentações de rua, mas, como não tínhamos muito tempo na cidade, preferimos ver as atrações turísticas, como o castelo:

Visitamos também o monumento ao escritor Walter Scott, uma obra bem bonita de onde se tem uma vista incrível da cidade:

Infelizmente, não conseguimos subir até o topo do Arthur’s Seat, porque precisava ser mais esportista pra subir aquela trilha de barro na chuva. Mas subimos uma parte do percurso do lugar que eu teimei em batizar/traduzir de “o banquinho do Arthur”, só pra passar os dias infernizando o Thur com piadinhas infames como “Oh Arthur, olha onde você foi colocar o seu banquinho, não precisava ser tão alto”…

Como não poderia faltar, fomos a Pubs escoceses, para não perder o habito, e comemos no Elephant House, considerado o melhor café de Edimburgo, onde a J.K. Rowling escreveu partes do Harry Potter. Alias, a cidade e a região se orgulham da escritora, que tem casa em Edimburgo e se baseou em varias atrações locais para escrever a série do jovem bruxo.

Tiramos um dia para conhecer as Highlands, com um guia de viagem muito bom, que nos contou a historia da região, mostrou lugares lindos e alternou sua fala na longa viagem de ônibus com canções tradicionais escocesas. Acho que as Highlands sozinhas rendem um post inteiro, de tão interessantes. Vamos ver se eu me inspiro.

Fomos até o conhecido lago Ness, onde passeamos de barco. Mas não vi nada, não. Nem um monstrinho. O Arthur fez essa foto ai, para a gente lembrar do Nessie, que não vimos, é claro.

A foto foi feita na parte de baixo do barco. O desenho do monstrinho fica na janela de vidro e fica la para os turistas tirarem fotos mesmo, pra mostrarem que viram o mostro…hehehe Além do Ness, a região é cheia de Locks, uns doces, outros salgados, porque se misturam com o mar. Todos têm uma água cristalina, que espelha perfeitamente a paisagem da região.

Como ficamos pouco tempo na Escócia, deu vontade de voltar outra vez. No verão, claro. Porque as outras estações não devem ser pra qualquer um. Haja blusa de frio!

PS 1: indicação pra quem for a Edimburgo – o Hotel Edinburgh First at University é otimo, tem um preço bom, serviço legal, localização boa e um café da manhã excelente. Fica nas acomodações dos estudantes da universidade, mas é muito mais confortavel que a maioria desse tipo de alojamento. Se voltar pra la, ja sei onde ficar hospedada.

PS 2: todas as nossas fotos da viagem estão aqui.

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Arquivado em castelo, comida, passeio, Reino Unido, viagem

Vou embora de Paris

Mas eu volto! Viajamos hoje para Londres. Ficamos la 8 dias e, depois, seguimos para Edimburgo. Não sei se vou conseguir atualizar o blog de la. Volto no dia 19 de agosto. São as merecidas férias do Arthur.

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A cidadela da luz perfeita

St-Paul de Vence é uma cidade bem pequena – parece uma vila – no sul da França. Resolvemos conhecer o lugar porque ficamos sabendo que, depois do Monte St-Michel, era o segundo local mais visitado na França. Mas o que teria essa cidadela de tão especial pra atrair tanta gente?

Saímos de Nice numa mini-excursão – um grupo de sete pessoas e um guia – para um roteiro de degustação de vinhos, seguido de um passeio pela concorrida St-Paul de Vence. Partimos rumo ao interior e paramos primeiro numa vinícola familiar que ficava no caminho para degustar os vinhos da sul da França, principalmente os rosés, especialidade da região. Os vinhos de la são mais fortes, mais alcoólicos e passam por um processo muito diferente daquele que conhecemos no Vale do Loire. Se no Vale do Loire e, de fato, na maioria das vinícolas daqui, preserva-se o vinho a baixas temperaturas no processo de produção, esses vinhos da Provence e da Côte d’Azur passam um tempão ao ar livre, numa fermentação natural feita pelo sol, o que faz com que as safras sejam muito diferentes umas das outras.

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Depois da parada para degustação, seguimos para nosso destino principal. St-Paul de Vence é uma aldeia murada, como muitas outras da França, com suas casas medievais de pedra.

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Algumas construções medievais são autênticas, mas muita coisa foi restaurada e reconstruída. Fica situada numa colina e, embora distante, da pra ver o mar de la. As ruelas de pedra são hiper charmosas e o que impressiona, de fato, é a quantidade de galerias de arte.

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A cidadela tem hoje arte por todo canto. E tem uma historia que atrai os artistas. Picasso descobriu a vila no começo de sua carreira. Como outros artistas, ficou encantado com a luz do local. Os artistas dizem que ha na região um tom de amarelo que não se vê em lugar algum. Uma luz que inspirava e ainda hoje atrai os pintores.

Verdade que, além da luz e da beleza da região, ajudou bastante a propaganda que Picasso fez para seus amigos. Na época de inicio de carreira, o artista espanhol não tinha dinheiro e encontrou apoio do dono do albergue La Colombe d’Or. Dizem que ele falava para os amigos: “Aqui é ótimo, ele me deixa morar e comer de graça. Em troca eu dou a ele alguns desenhos que produzo”. Assim, acabaram passando também pelo Colombe d’Or artistas como Matisse, Miro, Braque, Modigliani e Signac. Hoje, La Colombe d’Or é um hotel e restaurante com preços salgados. Os clientes podem admirar os inúmeros quadros dos grandes artistas que trabalharam no local.

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A gente aproveitou pra comprar duas telas impressas, baratas, em St-Paul de Vence, com paisagens tipicas da Provence. Olhamos algumas galerias com obras únicas e originais de artistas contemporâneos. Gostamos de muita coisa, mas, é claro, o preço é sempre proibitivo para a gente e para a maioria dos turistas. Porém, sempre tem aquelas galerias que fazem impressões e gravuras para vender aos turistas como souvenir. Eu, particularmente, achei tudo mais interessante do que o que costumo ver aqui em Paris nos bouquinistes e na Place du Tertre.

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Aviso aos amigos jornalistas

Essa dica é para os colegas de profissão, nobres jornaleiros que trabalham demais e recebem no fim do mês aquele holerite que parece uma piada. Se você é daqueles que deixa de almoçar pra filar o coffee break da coletiva de imprensa daquele banco ou daquela empresa endinheirada, ou fica feliz com qualquer jaba ou presentinho vagabundo das assessorias de imprensa é com você mesmo que estou falando. Atenção: quando vier a Paris, lembre-se de que jornalista não paga para entrar em quase nenhum museu ou exposição!

Verdade que é melhor ter a carteirinha internacional de jornalista. Eu, bobinha, achava que so valia essa carteirinha (que não tenho, porque não sou sindicalizada), e sempre pagava pra entrar. Até que, das ultimas vezes que fui para lugares pagos – Basilica de St-Denis e Esgotos de Paris – mencionei que era jornalista e me pediram credencial. Eu so tinha o cracha que uso para entrar no prédio em que trabalho – não é nem meu cracha da empresa, é so um crachazinho vagabundo pra entrar no prédio em que esta escrito Função: Jornalista Pauteiro, assim mesmo, em português, claro. E, pra minha surpresa, aceitaram e entrei de graça. Viu so que maravilha?

victorhugo 049

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Sakountala (o abandono)

Sakountala, segundo uma lenda indiana, era a filha de um sábio. Um rei poderoso, numa de suas andanças fora de seu domínio, vê Sakountala e se apaixona. Para sorte dele, ela também se apaixona. Os dois ficam juntos e têm um filho. O rei volta para seu reino, para começar as preparações do casamento com Sakountala. Ela fica e um dia acaba amaldiçoada por um feiticeiro. A maldição: o rei não lembraria nunca mais dela, assim como um homem bêbado que não se lembra do que fez ou do que falou no dia anterior. Sakountala vai ao encontro do rei, coberta, e conta a historia, mas ele não a reconhece. Ela fica desolada com a humilhação e se recolhe. Alguns anos mais tarde, o rei reencontra a mulher, a reconhece e, de joelhos, pede perdão pelo abandono, pelo esquecimento. Ela aceita o perdão.

Camille Claudel deu o nome de Sakountala a uma de suas esculturas mais bonitas, a primeira escultura dramática de sua autoria. No livro Une femme, que estou lendo, encontrei uma passagem muito bonita, que acontece depois que Camille pega seu amante Rodin no flagra com uma de suas modelos. Camille reflete e diz a Rodin que ela não é como sua esposa, que não tem ciumes e entende que um escultor tenha outros casos. E que ela, como também é uma artista, acha que devia começar a ter outros casos. Rodin pede perdão e se apavora com a possibilidade de perdê-la para outro homem.  Nesse momento, a biografa descreve uma cena que teria gerado a obra Sakountala. Destaquei esse trecho que achei lindo no livro, que é bem romantizado, como boa parte dessa biografia. Eu gostei, mesmo assim. Como disse minha amiga Kél nesse texto, a biografia perde muito da arte quando se contenta com o relato fiel dos fatos. O trecho abaixo – que eu destaquei em francês, mas também fiz a tradução – é uma descrição de uma cena terna entre os dois amantes, totalmente baseada na obra de Camille:

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Camille le regardait, cet enfant qui s’agrippait. Elle reculait, et lui s’accrochait comme si elle allait le quitter, les yeux desespérés, implorants. Démuni, un homme démuni, à genoux, un visage ravagé (…)

Elle penche la tête vers lui, l’embrasse à la tempe, délicate, ineffablement tendre, elle lui donne tout, son coeur même…”Monsieur Rodin”(…)

Les bûches flambent. Elle s’aperçoit, elle l’aperçoit, reflétés, démultipliés par les miroirs, la grande flambée derrière eux. Il devient l’autel por le sacrifice, elle la proie, elle se penche sur lui, joue contre sa joue, encore debout, elle est tout entière en train de glisser, contre lui, agenoillé. Il la retient encore mais déjà la tête s’affaisse. Un des bras pend, sans force…Dans un dernier geste, elle presse sa main contre son coeur – une douleur sorde qui serre, la joie trop forte de le retrouver, la seconde avant le contact, elle s’abandonne alors, elle meurt…

Camille o olhava, essa criança que se agachava. Ela recuava e ele se agarrava a ela como se ela fosse lhe deixar, os olhos desesperados, suplicantes. Indefeso, um homem indefeso, de joelhos, um rosto ferido…

Ela inclina a cabeça em direção a ele, beija sua têmpora, delicada, inefavelmente terna, ela lhe da tudo, até seu coração…”Monsieur Rodin”.

A lenha crepita. Ela se enxerga e lhe enxerga, refletidos, multiplicados pelos espelhos, a grande chama atras deles. Ele se torna o altar para o sacrifício e ela, a presa. Ela se inclina sobre ele, com a face encostada na dele, e desliza em direção a ele, ainda em baixo, ajoelhado. Ele a retém ainda, mas sua cabeça ja se curva. Um braço pendente, sem força…Num ultimo gesto, ela pressiona a mão contra o coração – uma dor surda que bloqueia, a alegria forte demais de reencontra-lo, o segundo antes do contato, ela então se abandona, ela morre…

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