Arquivo do mês: setembro 2009

Au revoir!

Hoje eu comi pela ultima vez no bandejão ruim da Cité, arrumei malas, doei roupas, pratos, copos, panelas…Joguei um monte de coisa fora. Ontem também foi assim: ida para o correio para despachar 12 quilos de livros. Os outros 11 couberam nas malas. Fechar conta no banco, mandar carta para anular seguros… E eu que achei que conseguiria passear e me despedir propriamente da cidade nesses dois dias!

Não tive tempo de ver a coleção permanente do Museu Pompidou, e também não consegui comprar algumas coisinhas de ultima hora (Rê, não deu pra comprar o protetor solar que vc me pediu 😦 ) Por isso, acabei nem atualizando o blog, mas ainda tenho muitos posts pra fazer (como o da Festa da Comuna, que algumas amigas cobraram). Então, acho que esse blog ainda tem uma sobrevida quando eu voltar para o Brasil…

Outra idéia que eu tive, mas não realizei (por preguiça mesmo) era sair para dar uma volta e tirar fotos de Paris de madrugada. Uma menina aqui da Maison fez uma série de Paris de madrugada e ficou muito bonita. Ontem so aproveitei pra tirar essa foto da minha janela à noite, porque o céu estava assim, rosa choque:

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Daqui a pouco vem um provável comprador ver a minha televisão e, depois disso, eu acabo com a fase “resolvendo problemas burocráticos antes de partir”. Hoje à noite, ainda bem, eu devo sair com o Arthur e os amigos dele pra uma despedida em algum bar do Quartier Latin. Pretendo dar uma passadinha ali do lado, no Sena, pra dizer à bientôt (até logo). Afinal, ainda tenho o que fazer nessa cidade, né?

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Poema pra brasileiro ler

Sexta-feira passada foi meu ultimo dia de aula na Aliança Francesa; meu e da outra aluna, uma italiana (éramos apenas duas). Apesar de pequena, o professor gostava da classe. E, no nosso ultimo dia de aula levou champanhe e petiscos, para uma mini-festa. Ele disse que faz isso sempre que gosta da turma, tira o dinheiro do bolso dele mesmo. Achei uma graça!

Ele também reservou a ultima parte da aula para a fonética. Como ele adora literatura, pediu para que a gente lesse poemas de Paul Verlaine, com atenção para a pronunciação e, claro, a interpretação. Ele leu uma vez para mostrar como teríamos que ler aqueles poemas tristes, melancólicos. O professor achou que a pronuncia da outra menina estava italiana demais, mas que ela estava quase acertando a interpretação. Ele gostou da minha pronunciação, mas não ficou satisfeito com a interpretação:

– Menos feliz, menos feliz…essa sua felicidade brasileira não combina com o poema!

Não teve jeito, tentei a voz mais triste que consegui… quer dizer, aquilo que eu considerava um triste natural. Sabe o que é professor, mais do que isso, eu vou começar a achar falso e, portanto, engraçado!

– Ai, vocês brasileiros não tem jeito…rsrsrs

Além dos poemas de Verlaine, ele mostrou um texto do Victor Hugo que eu achei excelente. Esse combinou com minha alegria brasileira, ainda bem. Deixo aqui a tradução e o poema no original, em francês:

Jovens, tenham cuidado com as coisas que vocês dizem

Jovens, tenham cuidado com as coisas que vocês dizem.
Tudo pode sair de uma palavra que, en passant, você perdeu.
Tudo, o ódio e o luto! – E não venha me dizer

Que seus amigos são confiáveis e que você fala baixo…

Escute bem:

Cara a cara, em particular,

Portas fechadas, em sua casa, sem uma testemunha que respire,

Você diz ao ouvido do mais discreto

De seus amigos de coração, ou, se você preferir,

Você murmura sozinho, acreditando que você quase se cala,

Do fundo de um porão a trinta pés debaixo da terra,

Uma palavra que desagrada a um individuo qualquer;

Essa palavra que você acredita que ninguém ouviu,

Que você dizia tão baixo num lugar surdo e sombrio,

Corre com negligência, parte, salta, sai da sombra!

Olhe, ela já esta la fora! Ela conhece o seu caminho.

Ela anda, ela tem dois pés, um bastão na mão,

Tem sapatos firmes, um passaporte em ordem;

– Precisando, ela cria asas, como a águia!

– Ela escapa de você, ela foge, nada a deterá.

Ela segue pelo cais, atravessa a praça, e tudo o mais,

Passa pela água sem barco na estação das vinhas,

E, atravessando um labirinto de ruas, vai

Direto até o individuo de quem você falou.

Ela sabe o numero, o andar; ela tem a chave,

Ela sobe a escada, abre a porta, passa,

Entra, chega e, desdenhosa, olhando o homem na cara,

Diz: – Olha eu aqui! Eu saio da boca de um tal…

– E esta feito. Você tem um inimigo mortal.

Jeunes gens, prenez garde aux choses que vous dites

Jeunes gens, prenez garde aux choses que vous dites.
Tout peut sortir d’un mot qu’en passant vous perdîtes.
Tout, la haine et le deuil ! – Et ne m’objectez pas
Que vos amis sont sûrs et que vous parlez bas… –
Ecoutez bien ceci :

Tête-à-tête, en pantoufle,
Portes closes, chez vous, sans un témoin qui souffle,
Vous dites à l’oreille au plus mystérieux
De vos amis de coeur, ou, si vous l’aimez mieux,
Vous murmurez tout seul, croyant presque vous taire,
Dans le fond d’une cave à trente pieds sous terre,
Un mot désagréable à quelque individu ;
Ce mot que vous croyez que l’on n’a pas entendu,
Que vous disiez si bas dans un lieu sourd et sombre,
Court à peine lâché, part, bondit, sort de l’ombre !
Tenez, il est dehors ! Il connaît son chemin.
Il marche, il a deux pieds, un bâton à la main,
De bons souliers ferrés, un passeport en règle ;
– Au besoin, il prendrait des ailes, comme l’aigle ! –
Il vous échappe, il fuit, rien ne l’arrêtera.
Il suit le quai, franchit la place, et caetera,
Passe l’eau sans bateau dans la saison des crues,
Et va, tout à travers un dédale de rues,
Droit chez l’individu dont vous avez parlé.
Il sait le numéro, l’étage ; il a la clé,
Il monte l’escalier, ouvre la porte, passe,
Entre, arrive, et, railleur, regardant l’homme en face,
Dit : – Me voilà ! je sors de la bouche d’un tel. –

Et c’est fait. Vous avez un ennemi mortel.

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Minha Rive Gauche

Na segunda-feira comecei um curso de francês intensivo na Aliança Francesa,  no Boulevard Raspail, pertinho do Jardim de Luxemburgo e das áreas que adoro no Quartier Latin. Dessa vez, a escola fica mais perto de casa. Daria até pra ir a pé, mas eu nunca consigo me programar pra sair mais cedo. Sempre que saio da aula, porém, aproveito pra dar uma voltinha pela região. Ontem tirei uma foto (torta!) com o celular (infelizmente, não estava carregando a maquina fotográfica) da vista que eu tenho no caminho que faço pra voltar pra casa. Atravesso o Jardim e sempre dou de cara com o Pantheon la atras, imagem que fiquei admirando a semana inteira, fazendo o mesmo trajeto. Antes de ontem eu até levei a câmera, mas pro meu azar, estava chovendo, o que deixa tudo mais sem graça. Ontem, pelo contrario, tava um dia gostoso de outono, um friozinho de leve, com sol.

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Quando ia para a outra escola de francês, a EFI, gostava de sair uma estação de metrô antes só para atravessar o rio Sena e a Ile de la Cité. Chegando na Rive Droit (margem direita), não tinha nada demais no meu trajeto pela região de Les Halles (lojas, lojas e mais lojas). Então, fiquei aqui pensando que se tivesse que escolher uma das margens eu ficaria com a Rive Gauche (margem esquerda) do Sena. Anexaria as ilhas fluviais e o Marais à minha margem escolhida, é claro. Ficaria assim a minha Paris Rive Gauche + anexos: começaria no 14º arrondissement, onde moro, bem na beirada sul, na Cité Universitaire, passaria por Montparnasse e seus cafés, creperias e cinemas, subiria até o Jardim de Luxemburgo, o Quartier Latin, com suas faculdades e livrarias, Saint-German ali do lado com seus cafés famosos. Anexaria as ilhas porque a Notre Dame, pra mim, com sua arquitetura e localização, é o ponto mais bonito da cidade. E a pequena Ile St-Louis é um charme e – muito importante – sedia a Bertillon, a melhor sorveteria de Paris, sem duvidas. O Marais é uma outra paixão, com seus casarões (chamados de hotéis) do século 17, o Hotel de Ville, a Place des Vosges e o publico variado que frequenta o bairro que concentra duas comunidades bem diferentes, os judeus e a comunidade gay parisiense. A foto abaixo eu tirei de dentro do museu Victor Hugo; era a vista que o escritor tinha de seu apartamento na linda Place des Vosges.

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Eu tava até esquecendo que a Torre Eiffel fica também na Rive Gauche, mas a verdade é que ela não é essencial na minha seleção. Gosto da torre, mas pra ver como turista. Não esta entre as minhas regiões e monumentos preferidos. E claro que, da mesma maneira, gosto de um monte de coisa que ficou do lado direito. Como esquecer do Louvre, do Arco do Triunfo, de Montmartre?

O que quero dizer é que sou mais Rive Gauche pra morar, frequentar, viver. Pra sentar e ler um livro, ficar horas num café, essas coisas. Numa divisão feita bem por cima, na Rive Gauche fica a Paris mais antiga (foi para a esquerda, afinal, que os romanos começaram a expandir a cidade, chamada então de Luthecia). Remanescente desse periodo, temos as Arènes de Luthece, as ruinas de uma imensa arena romana que encontramos surpreendentemente na area do Quartier Latin, numa entrada estreita de uma das ruazianhas de comércio proximas a Rue Mouffetard, onde fica o mercado ao ar livre mais conhecido de Paris.

A margem esquerda tem essas ruínas romanas e um pouco do que sobrou dos monumentos da Paris medieval. Tem, em volta da Sorbonne e de outras instituições de ensino um clima mais intelectual, um pouco mais artístico. No lado direito destaca-se os monumentos construídos a partir da época napoleônica, mais recente. Por ali fica uma Paris mais grandiosa, monumental, do Louvre, do Petit e do Grand Palais, da Opera. E é la que sentimos a Paris chique, luxuosa, da Champs Elisée, dos grandes boulevares, com suas lojas de grife.

Ja me falaram que muito da margem esquerda – principalmente o 14º arrondissement – é o tipo de lugar onde os bobo (pronuncia-se bobôs – e significa burguês boêmio) gostam de morar. Segundo os parisienses, o “burguês boêmio” é aquela pessoa que tem dinheiro, mas quer ficar longe do luxo e da ostentação. Então, ele mora num lugar bonito e arborizado, perto de centros de cultura, prefere comer “bio” e beber vinhos de pequenos produtores (mais caros, por sinal) e odeia grifes mas vive atras de tecidos “bio” (também caríssimos). Eu sei, tem um pouco de contradição nesses ricos que torcem o nariz para a ostentação, mas que têm um nivel de consumo tão alto quanto o das madames da Champs Elisées, mas confesso que gosto bastante dos lugares que eles escolhem para morar. Enfim, se eu tivesse muito dinheiro (e precisa ser muito, muito, muito mesmo!), eu compraria um belo apartamento na Rive Gauche e viveria muito bem por aqui!

Foto: vista do Parque Montsouris, aqui em frente à Cité

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Os fantasmas das Highlands

Os britânicos têm um gosto pelo bizarro, pela violência, o terror e as historias de fantasma. Pelo menos foi essa a impressão que a gente teve da Terra da Rainha. Você vê esse gosto na moda, nos costumes, no comportamento e nos lugares turísticos. Então, temos la um castelo muito visitado porque seria mal-assombrado, um museu da tortura, os lugares por onde passaram o notório Jack, o estripador, em Londres. Criminosos lendários, historias de morte, de terror e de fantasmas vivem no imaginário popular.

Os escoceses não ficam atras dos londrinos. Fala-se muito do passado heroico, mas também dos massacres e da violência que marcou o pais. Fizemos uma viagem de um dia pelas Highlands, saindo de Edimburgo nas terras baixas, passando pelo Lago Ness, já nas famosas terras altas, e chegando em Inverness, mais ao norte. Passamos por terras de formação antiga que hoje lembram um inacreditável terreno lunar, com os locks de água cristalina, refletindo e repetindo a paisagem que naturalmente já se repete.

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As imagens ficaram ainda mais interessantes porque tivemos a sorte de sermos acompanhados por um guia de viagem super empolgado, que contava a historia de cada cantinho, cada ponte, ruína, lago ou montanha. Nas varias historias, algo em comum, aquilo que eu já tinha sentido em Londres, um interesse pelas historias violentas que marcaram a região. Uma delas, conhecida de praticamente todos os escoceses, ficou mais viva na minha memoria: o massacre de Glencoe, de 1692.

O Brian, nosso guia escocês contou que essa tragédia teria abalado a hospitalidade dos highlanders. O dia 13 de fevereiro de 1692 é relembrado pelos escoceses como um dia de covardia e injustiça, de abuso do poder real ou de uma briga antiga entre dois clãs escoceses. Nessa data, 38 homens do clã dos MacDonalds foram mortos em suas casas, surpreendentemente, por seus próprios hospedes. Duas semanas antes, a família tinha recebido homens do exército inglês, alguns deles conhecidos e até parentes distantes, pertencentes a outros clãs highlanders. Eles comeram, beberam e se divertiram junto com a família, que recebeu bem os “amigos”, sem desconfiar que tudo fazia parte de um complô para exterminar o clã. Depois do massacre, mais 40 mulheres e crianças morreram de frio e de fome, com suas casas queimadas pelo exército, abandonadas no frio e sem recursos num terreno inóspito, árido e distante dos outros clãs.

O mais cruel da chacina é que ela aconteceu por causa de um detalhe burocrático, pelo menos foi esse detalhe que serviu como desculpa para o ato abominável. Em 1688, houve uma disputa de sucessão pelo trono da Inglaterra entre William de Orange e James VII. Alguns escoceses, principalmente os das terras baixas, apoiaram William, mas os highlanders queriam James no poder. Houve vários motins jacobinos (nome dado aos highlanders que apoiavam James) e batalhas entre os dois grupos. James foi derrotado e partiu para o exílio na França. Quando subiu ao trono, William decidiu perdoar todos os highlanders que jurassem lealdade a seu reino. E estabeleceu um prazo para o juramento oficial: 1 de janeiro de 1692. Quem não fizesse o juramento sofreria represálias. Os highlanders receberam a autorização de James, exilado na França, para fazer o que o rei pedia. Alguns foram rápidos e conseguiram fazer o voto de lealdade ao rei no meio de dezembro. Outros deixaram para ultima hora. Foi o caso de Alastair Maclain, chefe do clã dos MacDonalds.

No dia 31 de dezembro de 1691, Maclain dirigiu-se a Fort William, região mais próxima onde um oficial poderia registrar seu juramento. La, foi informado pelo oficial que teria que ir para outro lugar, Inveranay, para registrar o juramento com o sheriff Colin Campbell. Como o oficial sabia que a viagem duraria pelo menos uns três dias no inverno, tranquilizou Maclain e deu a ele uma carta que comprovava que ele tinha chegado a tempo para o juramento. E, assim, o pobre Maclain teve que seguir para outro guichê, digo, outra propriedade, para o registro oficial.

Chegando em Inveranay, ainda teve que esperar mais 3 dias porque o funcionário publico, digo, o oficial do rei, Colin Campbell estava de férias. Depois do chá de cadeira, ele conseguiu oficializar o juramento com o relutante Campbell.  A partir desse momento não se sabe exatamente quem teve a maquiavélica ideia da punição com base num detalhe burocrático. Sabe-se que estiveram envolvidos na historia o Campbell, que não gostava da família MacDonald depois que membros do clã roubaram gado de sua família e um tal de John Dalrymple, um alto servidor real que odiava os highlanders e seus modos “bárbaros”. Não se sabe se o próprio rei William fez parte do complô. Fato é que ele assinou uma ordem para o assassinato dos MacDonalds, com base na desculpa de que o chefe do clã não teria feito o juramento a tempo.

Alguns soldados foram informados da chacina na véspera. Houve quem aceitasse as ordens, mas outros decidiram quebrar suas espadas e se negaram a seguir os superiores. Mesmo correndo risco de morte, alguns soldados tentaram avisar e salvar membros da família. O massacre foi posteriormente condenado pelo Parlamento Escocês, mas nada foi feito contra os reais responsáveis. No fim, a chacina contribuiu para exaltar ainda mais os ânimos dos highlanders contra o monarca, o que acendeu novas revoltas jacobinas nos anos seguintes. Até hoje, o episodio é conhecido como o dia mais infame da historia escocesa. O dia foi imortalizado por artistas, músicos e escritores, como Walter Scott e T.S. Eliot. No poema “Rannoch, by Glencoe”, Eliot diz:

Aqui o corvo passa fome, aqui o veado paciente
procria para a espingarda. Entre o terreno suave
e o céu suave, quase não há lugar
para pular ou planar. A substância se desfaz, no ar fino,
frio lunar ou calor lunar. A estrada venta
na apatia de uma guerra antiga,
languidez de ferro quebrado,
clamor de injustiça confusa, competente
no silêncio. A memória é forte
e vai além do osso. Orgulho cortado,
é longa a sombra do orgulho, no longo desfiladeiro
sem o concordância do osso.

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