Os fantasmas das Highlands

Os britânicos têm um gosto pelo bizarro, pela violência, o terror e as historias de fantasma. Pelo menos foi essa a impressão que a gente teve da Terra da Rainha. Você vê esse gosto na moda, nos costumes, no comportamento e nos lugares turísticos. Então, temos la um castelo muito visitado porque seria mal-assombrado, um museu da tortura, os lugares por onde passaram o notório Jack, o estripador, em Londres. Criminosos lendários, historias de morte, de terror e de fantasmas vivem no imaginário popular.

Os escoceses não ficam atras dos londrinos. Fala-se muito do passado heroico, mas também dos massacres e da violência que marcou o pais. Fizemos uma viagem de um dia pelas Highlands, saindo de Edimburgo nas terras baixas, passando pelo Lago Ness, já nas famosas terras altas, e chegando em Inverness, mais ao norte. Passamos por terras de formação antiga que hoje lembram um inacreditável terreno lunar, com os locks de água cristalina, refletindo e repetindo a paisagem que naturalmente já se repete.

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As imagens ficaram ainda mais interessantes porque tivemos a sorte de sermos acompanhados por um guia de viagem super empolgado, que contava a historia de cada cantinho, cada ponte, ruína, lago ou montanha. Nas varias historias, algo em comum, aquilo que eu já tinha sentido em Londres, um interesse pelas historias violentas que marcaram a região. Uma delas, conhecida de praticamente todos os escoceses, ficou mais viva na minha memoria: o massacre de Glencoe, de 1692.

O Brian, nosso guia escocês contou que essa tragédia teria abalado a hospitalidade dos highlanders. O dia 13 de fevereiro de 1692 é relembrado pelos escoceses como um dia de covardia e injustiça, de abuso do poder real ou de uma briga antiga entre dois clãs escoceses. Nessa data, 38 homens do clã dos MacDonalds foram mortos em suas casas, surpreendentemente, por seus próprios hospedes. Duas semanas antes, a família tinha recebido homens do exército inglês, alguns deles conhecidos e até parentes distantes, pertencentes a outros clãs highlanders. Eles comeram, beberam e se divertiram junto com a família, que recebeu bem os “amigos”, sem desconfiar que tudo fazia parte de um complô para exterminar o clã. Depois do massacre, mais 40 mulheres e crianças morreram de frio e de fome, com suas casas queimadas pelo exército, abandonadas no frio e sem recursos num terreno inóspito, árido e distante dos outros clãs.

O mais cruel da chacina é que ela aconteceu por causa de um detalhe burocrático, pelo menos foi esse detalhe que serviu como desculpa para o ato abominável. Em 1688, houve uma disputa de sucessão pelo trono da Inglaterra entre William de Orange e James VII. Alguns escoceses, principalmente os das terras baixas, apoiaram William, mas os highlanders queriam James no poder. Houve vários motins jacobinos (nome dado aos highlanders que apoiavam James) e batalhas entre os dois grupos. James foi derrotado e partiu para o exílio na França. Quando subiu ao trono, William decidiu perdoar todos os highlanders que jurassem lealdade a seu reino. E estabeleceu um prazo para o juramento oficial: 1 de janeiro de 1692. Quem não fizesse o juramento sofreria represálias. Os highlanders receberam a autorização de James, exilado na França, para fazer o que o rei pedia. Alguns foram rápidos e conseguiram fazer o voto de lealdade ao rei no meio de dezembro. Outros deixaram para ultima hora. Foi o caso de Alastair Maclain, chefe do clã dos MacDonalds.

No dia 31 de dezembro de 1691, Maclain dirigiu-se a Fort William, região mais próxima onde um oficial poderia registrar seu juramento. La, foi informado pelo oficial que teria que ir para outro lugar, Inveranay, para registrar o juramento com o sheriff Colin Campbell. Como o oficial sabia que a viagem duraria pelo menos uns três dias no inverno, tranquilizou Maclain e deu a ele uma carta que comprovava que ele tinha chegado a tempo para o juramento. E, assim, o pobre Maclain teve que seguir para outro guichê, digo, outra propriedade, para o registro oficial.

Chegando em Inveranay, ainda teve que esperar mais 3 dias porque o funcionário publico, digo, o oficial do rei, Colin Campbell estava de férias. Depois do chá de cadeira, ele conseguiu oficializar o juramento com o relutante Campbell.  A partir desse momento não se sabe exatamente quem teve a maquiavélica ideia da punição com base num detalhe burocrático. Sabe-se que estiveram envolvidos na historia o Campbell, que não gostava da família MacDonald depois que membros do clã roubaram gado de sua família e um tal de John Dalrymple, um alto servidor real que odiava os highlanders e seus modos “bárbaros”. Não se sabe se o próprio rei William fez parte do complô. Fato é que ele assinou uma ordem para o assassinato dos MacDonalds, com base na desculpa de que o chefe do clã não teria feito o juramento a tempo.

Alguns soldados foram informados da chacina na véspera. Houve quem aceitasse as ordens, mas outros decidiram quebrar suas espadas e se negaram a seguir os superiores. Mesmo correndo risco de morte, alguns soldados tentaram avisar e salvar membros da família. O massacre foi posteriormente condenado pelo Parlamento Escocês, mas nada foi feito contra os reais responsáveis. No fim, a chacina contribuiu para exaltar ainda mais os ânimos dos highlanders contra o monarca, o que acendeu novas revoltas jacobinas nos anos seguintes. Até hoje, o episodio é conhecido como o dia mais infame da historia escocesa. O dia foi imortalizado por artistas, músicos e escritores, como Walter Scott e T.S. Eliot. No poema “Rannoch, by Glencoe”, Eliot diz:

Aqui o corvo passa fome, aqui o veado paciente
procria para a espingarda. Entre o terreno suave
e o céu suave, quase não há lugar
para pular ou planar. A substância se desfaz, no ar fino,
frio lunar ou calor lunar. A estrada venta
na apatia de uma guerra antiga,
languidez de ferro quebrado,
clamor de injustiça confusa, competente
no silêncio. A memória é forte
e vai além do osso. Orgulho cortado,
é longa a sombra do orgulho, no longo desfiladeiro
sem o concordância do osso.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Os fantasmas das Highlands

  1. Guilherme

    Thais, parabéns pelo texto, pela sensibilidade de ter percebido o “horror” que sempre rondou as Highlands (e várias outras regiões de UK) e pela lembrança de Eliot, que expôs esse horror incansavelmente em seus poemas. O poema que você cita foi feito numa visita do poeta as Highlands, em 1935. Rannoch é alguma coisa parecida com um pântano ou uma pastagem úmida, e está localizada no vale de Glencoe, que você deve ter visto. Esse terreno “pantanoso” (Rannoch) era (ou é ainda) um local preferido para caçadores de veado (o autor mostra que ele parece ser criado por lá só para ser caçado). Eliot fala em… “quase não há lugar para pular ou planar”… porque o céu de Glencoe, segundo ele, é muito nublado, fica parecendo baixo (você talvez tenha percebido isso na região), tão perto da paisagem que “não há espaço” para o veado dar um salto ou o corvo voar mais alto. Quando ele escreve… “clamor de injustiça confusa, competente no silêncio”… refere-se ao fato da guerra ter ocorrido por uma teórica confusão, sendo que os dois lados estavam errados (e certos). Os Campbells pensavam que os Macdonalds estavam sendo desleais ao rei Guilherme da Inglaterra, e os Macdonalds pensavam que os Campbells eram traidores da Escócia. Para Eliot (não sei se para a história também) a guerra ocorreu por puro orgulho (“Orgulho cortado, é longa a sombra do orgulho”). Orgulho este (tanto da Inglaterra, como da Escócia) que era tão forte na época (e ainda é) que nem os ossos dos mortos vão mentir. Para o poeta, o orgulho naquela região é maior que tudo, e não haverá “concorrência” ou harmonia entre os ossos dos inimigos mortos, já que o orgulho supera até mesmo uma vida humana. Para Eliot, até mesmo os fantasmas não têm paz no desfiladeiro, como você menciona em seu texto. Eliot em seu poema quer mostrar como é perturbador e duro o orgulho humano em geral, e usa como exemplo o orgulho dos mortos do pântano de Rannoch.
    Adorei seu texto e acabei me metendo nele, sorry.
    Beijocas.

    • Sempre ótimos seus comentários, Guilherme. Você ja conhecia o poema? Eu só conheci agora, pesquisando sobre as obras relacionadas ao massacre. Tato que traduzi concurrence como concordância porque achei que fazia mais sentido no contexto. Mas pelo que vc falou, concorrência fica melhor mesmo.
      Beijos

  2. Guilherme

    Taís, já conhecia mas não lembrava. Esse poemito peça faz parte da coletanea de seus poemas curtos (“Landscape”), que tenho. Quanto as observações que fiz no texto, são extraídas do site Skoool.ie, onde sempre busco auxílio para entender melhor os grandes poetas de lingua inglesa, principalmente os modernistas. Confira: http://www.skoool.ie/skoool/examcentre_sc.asp?id=3043
    Bj.

  3. IMM

    Thaís e Guilherme, amei o diálogo de vocês !

  4. Estive agora pouco nesta viagem em direção ao lago Ness e fiquei encantada com tudo porém muito triste com a história do massacre desta família. Enfim é vivendo e aprendendo ou seja viajando e sabendo das coisas, beijos para vocês /Eleonora

  5. Hj eu “vivi” uma aula de História magnífica!

  6. Ricardo

    Foi essa história que inspirou o casamento vermelho das crônicas de gelo e fogo.

  7. edng2015

    vou para lá em 4 semanas . Estes conhecimentos vão enriquecer minha visita a este país repleto de historias de coragem e dignidade !

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