Poema pra brasileiro ler

Sexta-feira passada foi meu ultimo dia de aula na Aliança Francesa; meu e da outra aluna, uma italiana (éramos apenas duas). Apesar de pequena, o professor gostava da classe. E, no nosso ultimo dia de aula levou champanhe e petiscos, para uma mini-festa. Ele disse que faz isso sempre que gosta da turma, tira o dinheiro do bolso dele mesmo. Achei uma graça!

Ele também reservou a ultima parte da aula para a fonética. Como ele adora literatura, pediu para que a gente lesse poemas de Paul Verlaine, com atenção para a pronunciação e, claro, a interpretação. Ele leu uma vez para mostrar como teríamos que ler aqueles poemas tristes, melancólicos. O professor achou que a pronuncia da outra menina estava italiana demais, mas que ela estava quase acertando a interpretação. Ele gostou da minha pronunciação, mas não ficou satisfeito com a interpretação:

– Menos feliz, menos feliz…essa sua felicidade brasileira não combina com o poema!

Não teve jeito, tentei a voz mais triste que consegui… quer dizer, aquilo que eu considerava um triste natural. Sabe o que é professor, mais do que isso, eu vou começar a achar falso e, portanto, engraçado!

– Ai, vocês brasileiros não tem jeito…rsrsrs

Além dos poemas de Verlaine, ele mostrou um texto do Victor Hugo que eu achei excelente. Esse combinou com minha alegria brasileira, ainda bem. Deixo aqui a tradução e o poema no original, em francês:

Jovens, tenham cuidado com as coisas que vocês dizem

Jovens, tenham cuidado com as coisas que vocês dizem.
Tudo pode sair de uma palavra que, en passant, você perdeu.
Tudo, o ódio e o luto! – E não venha me dizer

Que seus amigos são confiáveis e que você fala baixo…

Escute bem:

Cara a cara, em particular,

Portas fechadas, em sua casa, sem uma testemunha que respire,

Você diz ao ouvido do mais discreto

De seus amigos de coração, ou, se você preferir,

Você murmura sozinho, acreditando que você quase se cala,

Do fundo de um porão a trinta pés debaixo da terra,

Uma palavra que desagrada a um individuo qualquer;

Essa palavra que você acredita que ninguém ouviu,

Que você dizia tão baixo num lugar surdo e sombrio,

Corre com negligência, parte, salta, sai da sombra!

Olhe, ela já esta la fora! Ela conhece o seu caminho.

Ela anda, ela tem dois pés, um bastão na mão,

Tem sapatos firmes, um passaporte em ordem;

– Precisando, ela cria asas, como a águia!

– Ela escapa de você, ela foge, nada a deterá.

Ela segue pelo cais, atravessa a praça, e tudo o mais,

Passa pela água sem barco na estação das vinhas,

E, atravessando um labirinto de ruas, vai

Direto até o individuo de quem você falou.

Ela sabe o numero, o andar; ela tem a chave,

Ela sobe a escada, abre a porta, passa,

Entra, chega e, desdenhosa, olhando o homem na cara,

Diz: – Olha eu aqui! Eu saio da boca de um tal…

– E esta feito. Você tem um inimigo mortal.

Jeunes gens, prenez garde aux choses que vous dites

Jeunes gens, prenez garde aux choses que vous dites.
Tout peut sortir d’un mot qu’en passant vous perdîtes.
Tout, la haine et le deuil ! – Et ne m’objectez pas
Que vos amis sont sûrs et que vous parlez bas… –
Ecoutez bien ceci :

Tête-à-tête, en pantoufle,
Portes closes, chez vous, sans un témoin qui souffle,
Vous dites à l’oreille au plus mystérieux
De vos amis de coeur, ou, si vous l’aimez mieux,
Vous murmurez tout seul, croyant presque vous taire,
Dans le fond d’une cave à trente pieds sous terre,
Un mot désagréable à quelque individu ;
Ce mot que vous croyez que l’on n’a pas entendu,
Que vous disiez si bas dans un lieu sourd et sombre,
Court à peine lâché, part, bondit, sort de l’ombre !
Tenez, il est dehors ! Il connaît son chemin.
Il marche, il a deux pieds, un bâton à la main,
De bons souliers ferrés, un passeport en règle ;
– Au besoin, il prendrait des ailes, comme l’aigle ! –
Il vous échappe, il fuit, rien ne l’arrêtera.
Il suit le quai, franchit la place, et caetera,
Passe l’eau sans bateau dans la saison des crues,
Et va, tout à travers un dédale de rues,
Droit chez l’individu dont vous avez parlé.
Il sait le numéro, l’étage ; il a la clé,
Il monte l’escalier, ouvre la porte, passe,
Entre, arrive, et, railleur, regardant l’homme en face,
Dit : – Me voilà ! je sors de la bouche d’un tel. –

Et c’est fait. Vous avez un ennemi mortel.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Poema pra brasileiro ler

  1. Keux

    que demais!
    vou postar no meu blog!

    eeeee!!!
    tá chegando a hora de nos revermoooos!!!!

    bjksss

  2. ah, mas isso de brasileiro ser feliz sempre é tão clichê, né? aposto que você ficou uma graça lendo em francês. [eu como professora de línguas acho o seguinte: ler em voz alta não ajuda ninguém a falar melhor uma língua, porque a entonação de quando lemos é totalmente diferente daquela quando estamos falando. e que essa coisa de sotaque vai existir sempre; o que importa mesmo é se fazer entender. em inglês existe uma tolerância maior, até porque 2/3 dos falantes de inglês no mundo sao não-nativos, ou seja; aquele sentimento que os ingleses tinham de ‘donos da língua’ cada vez mais não se sustenta. a gente agora fala em ‘inglês chinês’, ‘inglês italiano’ e por aí vai, hehehehe] bjs!!!

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